Deseje-me se puder - Capítulo 119
Renk, renk, renk.
O olhar amargo de Dane voltou-se para o café enquanto Darling continuava a arranhar a mesa com as patas, fungando sem parar. O aroma que era tão agradável para os humanos parecia incomodar a gata.
‘Bom, faz sentido.’
Dane finalmente aceitou o fato com relutância enquanto observava a gata escavar a mesa como se fosse uma caixa de areia. Depois de um suspiro resignado, ele pegou Darling no colo e a colocou no topo do arranhador. Só quando teve certeza de que o bichano estava confortável, voltou para sua cadeira.
Mal começou a aproveitar seu momento de paz quando um raio cortou o céu do lado de fora. Felizmente, a gata quase surda e cega mal reagiu, apenas ergueu uma orelha antes de voltar ao que quer que estivesse fazendo.
Dane tomou um gole do café e olhou pela janela. Desde a primeira vez que entrou naquele quarto, a paisagem do lado de fora tinha chamado sua atenção, mas agora, com o tempo fechado, parecia algo saído de um filme de terror.
A chuva desabava, algo raro naquela região, e ele não estava acostumado com aquele tipo de clima. Ainda assim, de certa forma, se sentiu aliviado.
‘Pelo menos hoje vai ser tranquilo…’
Ele tomou um gole e, de repente, resmungou:
— Tsk.
Então, estalou a língua, irritado. Se estivesse de plantão num dia desses, poderia apenas enrolar até a hora de ir embora. Mas, claro, justamente hoje era seu dia de folga. O azar parecia persegui-lo ultimamente.
Enquanto esvaziava a xícara com frustração, um som diferente misturou-se ao barulho da chuva.
O carro de Grayson cortava a estrada, acelerando sem a menor preocupação com o temporal.
‘Onde esse idiota vai no meio dessa tempestade…’
A pergunta surgiu em sua mente, mas ele logo a ignorou. Dane deu de ombros.
‘O que ele faz da vida não é problema meu.’
Alguns dias se passaram e, para sua surpresa – e alívio –, Grayson aparentemente tinha desistido de tentar convencê-lo de seja lá o que fosse. Dane continuou agindo como se ele nem existisse, e os dois passaram a dividir o mesmo teto como se estivessem vivendo em dimensões separadas, sem trocar uma única palavra.
Para Dane, aquilo estava ótimo. Ele pretendia apenas cumprir o tempo restante e ir embora. Tudo isso havia sido um erro desde o início. Não sabia exatamente o que Grayson esperava dele, mas se o homem tinha alguma ilusão romântica, já devia ter percebido que Dane Striker não era do tipo que se envolvia profundamente. Nunca foi. Nunca seria. O fim inevitável simplesmente chegou mais cedo.
Agora só faltava um mês. Depois disso, Dane iria embora, e Grayson faria o que sempre fez: encontraria outro alvo para sua atenção temporária. E então eles nunca mais cruzariam o caminho um do outro.
‘Ótimo é assim que deve ser.’
Ele pensou levando a xícara aos lábios, só então percebendo que já estava vazia.
Ficou ali por um instante encarando o nada, então se levantou, foi até a bancada, lavou o copo e o deixou secando. Depois, passou o resto da noite matando tempo até decidir se enfiar na cama.
Mais uma vez, um clarão assustador iluminou o mundo, seguido por um estrondo. Lá fora, a chuva continuava a cair, implacável.
***
Mesmo deitado no quarto mais afastado do salão principal, onde a festa rolava solta, o cheiro de feromônios ainda impregnava o ar.
Grayson estava deitado na cama, com os olhos fechados, respirando com dificuldade. Seu coração acelerado batia forte contra as costelas sem a menor intenção de acalmar. A essa altura, a dor de cabeça já estava insuportável. O anfitrião da festa olhou para ele, que soltava gemidos baixos, e perguntou:
— Você está bem, Grayson? O que aconteceu para você acumular tanto feromônio assim?
— Não importa. — Grayson respondeu entre respirações irregulares. — Onde está o Steward?
O anfitrião franziu a testa, surpreso.
— Ele não veio hoje.
A expressão de Grayson se contraiu na hora. O outro homem hesitou, mas não tinha como mentir.
Norman Steward.
Sempre que os alfa dominantes tinham algum problema, ele era o primeiro a ser chamado. Não existia ninguém que entendesse melhor a biologia deles do que ele. Especialmente quando o assunto era pesquisa sobre os alfas dominantes, Steward estava anos-luz à frente de qualquer um. Por isso, era comum que todos o procurassem para resolver questões relacionadas à sua condição.
Mas, acima de tudo, ele era indispensável quando alguém precisava extrair feromônios. Sempre que havia festas assim, os anfitriões costumavam chamá-lo para evitar qualquer incidente. Normalmente, era quase certo encontrá-lo nesses eventos.
— Fui até o laboratório dele e me disseram que ele estava fora, então resolvi vir até aqui… — Grayson murmurou, quase para si mesmo.
O anfitrião assentiu.
— Sim, ele está de férias. Mas deixou alguém de plantão para emergências. Se precisar, posso chamar.
— Chame. — Grayson não esperou nem o cara terminar de falar.— Agora.
O anfitrião suspirou e esfregou a testa antes de sugerir outra coisa:
— Grayson… Em vez disso, por que você não resolve isso de um jeito mais fácil? Posso mandar alguns ômegas para cá. É mais simples, mais rápido e menos arriscado. Por que diabos você veio até aqui só para tomar uma injeção e extrair feromônio? — Ele fez uma careta e completou: — Primeiro foi o Chase fazendo essas loucuras, e agora você?
<Não quero fazer sexo com alguém que eu não ame.>
De repente, Grayson lembrou dessas palavras, esquecidas até então. A imagem do irmão mais novo, com os olhos marejados, veio à sua mente. Ele sorriu, sem energia.
— O problema é que eu sou meio pervertido.
— Ah, pelo amor de Deus.
O anfitrião revirou os olhos, balançou a cabeça e saiu do quarto, deixando Grayson sozinho.
Grayson fechou os olhos, sentindo a mente ficar embaçada. Sentia o corpo inteiro flutuando, como se não fosse mais seu. O coração batia descontroladamente, mas seus membros estavam pesados, moles. O calor queimava cada canto da sua pele, mas, estranhamente, seus dedos pareciam dormentes.
Grayson suspirou. Sua mente enevoada projetou a imagem de alguém.
‘Me desculpe, Dane.’
Ele repetiu as palavras em sua boca, como se estivesse provando o gosto delas.
E então, imaginou a resposta:
‘Esta tudo bem, seu idiota.’
Inacreditavelmente, Dane sorriu e puxou Grayson pela nuca. Ah.… O peito de Grayson se apertou.
‘Eu te amo, Dane.’
‘Você é… meu…’
— Grayson Miller!
O grito repentino fez Grayson abrir os olhos com muito esforço. As pálpebras pesavam como chumbo, e sua visão estava embaçada, sem conseguir focar em nada. Ele tentou fechá-los de novo, mas a voz insistente voltou a chamá-lo.
— Miller, acorda! Grayson Miller, porra!
Os gritos, agora misturados com palavrões, fizeram sua consciência emergir aos poucos. Só então ele percebeu, vagamente, que estava perdido em um sonho.
Com um esforço imenso, Grayson abriu os olhos outra vez. Por um momento, ficou completamente perdido. Tinha certeza de que havia acordado… então por que Dane ainda estava ali, bem na sua frente?
O que diabos estava acontecendo?
‘Ah… droga.’
Dane ficou agitado ao ver Grayson olhando para ele com os olhos sem foco. Ele não fazia ideia do que estava acontecendo, mas algo definitivamente estava errado. O cheiro de feromônio impregnava o ar, denunciando que Grayson tinha saído para alguma festa. Mas o estado em que ele se encontrava… era completamente anormal.
Até alguns minutos atrás, Dane estava mergulhado em um sono profundo. O que o despertou foi justamente aquele cheiro forte, invadindo sua consciência e puxando-o de volta à realidade. Ainda meio zonzo, ele se levantou e percebeu que o quarto inteiro estava tomado pelo aroma adocicado.
Por um momento, considerou a possibilidade de Grayson ter entrado ali enquanto ele dormia. Mas não. O quarto continuava exatamente do jeito que estava antes.
O que significava apenas uma coisa: o cheiro vinha do cômodo ao lado.
E um cheiro tão intenso assim… só podia significar uma coisa. Rut.
Dane ficou parado por alguns segundos, ponderando. Ele tinha uma única escolha a fazer. E a decisão correta era simplesmente sair daquela casa imediatamente.
Os feromônios de Grayson já estavam afetando seus instintos. Seu rosto queimava, e ele podia sentir seu pulso acelerado. Com um rosto distorcido de frustração, Dane percebeu que não tinha tempo para hesitar. Rapidamente, pegou Darling e saiu do quarto.
Mas no instante em que pisou no corredor, percebeu que havia cometido um erro. O cheiro de feromônios já havia se espalhado por todo o lugar. Ali, estava ainda pior. Pelo menos dentro do quarto ele tinha algum controle. Mas agora? O que diabos estava acontecendo para o feromônio de Grayson ter se espalhado tanto assim?
A resposta veio rápido demais. Grayson estava caído no chão, com a porta do quarto aberta.
No instante em que o viu, Dane colocou Darling de volta no quarto e correu em direção a ele.
— Grayson! Grayson Miller!
Chamou o nome dele várias vezes, mas Grayson continuava sem reação.
‘O que aconteceu?’
Dane apertou os punhos. Não era só um rut normal.
Era quase como se…
Como se ele estivesse intoxicado.
°
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Continua…