Deseje-me se puder - Capítulo 118
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O cenário do incêndio não era muito diferente de tudo o que ele já tinha visto até então. Ao avistar as chamas que se alastravam, os bombeiros que desceram dos caminhões se dispersaram de forma organizada, cada um indo direto para sua função.
Grayson olhou rapidamente ao redor e, ao avistar Dane pegando seus equipamentos, apressou-se e foi até ele.
— Dane, o que eu devo fazer?
Ele fez a pergunta esperando que Dane, como da última vez, lhe dissesse o que fazer. Com um machado em uma mão e o capacete na outra, ele simplesmente se virou e foi embora, deixando Grayson parado, sem saber como reagir. De longe, Deandre viu a cena e franziu a testa.
— O que foi isso? Eles brigaram?
Ezra lançou um olhar rápido na direção dos dois e, sem se dar ao trabalho de comentar, voltou ao que estava fazendo.
— Agora não é hora de se preocupar com isso.
— Ah… É, é… Tem razão.
O tom frio de Ezra, diferente do habitual, deixou Deandre constrangido, e ele rapidamente se apressou em ajudá-lo. Mas, mesmo assim, uma sensação incômoda permaneceu.
A última vez que Dane perdeu a cabeça, todo mundo ali viu o estrago. Rolou uma investigação interna, a polícia foi chamada. Os jornalistas tiveram um prato cheio, lançando um monte de matérias sensacionalistas, e a opinião pública caiu matando. No entanto, a situação logo se inverteu. Descobriram que o homem que Dane espancou já tinha matado a própria esposa, escondido o corpo e, pior, abusado do próprio filho até a morte. O incêndio tinha sido só uma tentativa absurda de encobrir os crimes.
A razão pela qual ele não descartou o corpo da criança, ao contrário do da esposa, era que ela não tinha idade para sair de casa por vontade própria. Ele pensou que, se a criança desaparecesse de repente, os vizinhos iriam suspeitar e chamar as autoridades. Então o infeliz resolveu atear fogo na casa, tentando fazer parecer que a criança, sozinha em casa, tinha brincado com fogo enquanto ele estava no trabalho. Só que, claro, a vida não é tão fácil quanto ele achava.
Quando essa história veio à tona, a opinião pública deu um giro de 180 graus. Agora, Dane virou um heroi.
[Eu sabia que os bombeiros são a justiça em pessoa! O soco da justiça!]
[Devia ter matado ele logo! Mas, claro, os bombeiros são bonzinhos demais…]
[Isso merece uma medalha! Alguém dá uma recompensa para o nosso heroi!]
E assim, Dane virou quase um ídolo. A investigação esfriou, e no fim, foi como se nada tivesse acontecido. No entanto, o chefe do departamento não podia simplesmente deixar passar.
<Você precisa garantir que Dane seja controlado para que algo assim não aconteça de novo.>
Wilkins recebeu essa ordem e, claro, logo o resto da equipe ficou sabendo. Desde então, todos estavam meio que de olho em Dane, esperando para ver se ele ia explodir outra vez. Foi assim que começaram a prestar mais atenção em sua relação com Grayson.
Agora, olhando os dois naquele clima estranho, Deandre não sabia o que pensar. Mas antes que pudesse se aprofundar no assunto, Ezra o apressou, e ele voltou a focar no trabalho.
‘Eles estavam tão próximos antes, agindo como um casal… O que diabos aconteceu?’
Deandre não gostava muito de Grayson, então ele até poderia ter ficado satisfeito com a situação. Mas com o clima entre eles estranho daquele jeito… ele se sentiu incomodado. E, para piorar, Deandre andava refletindo se não tinha sido duro demais com Grayson esse tempo todo.
— Ahh…
Ele soltou um suspiro, sacudiu a cabeça e se concentrou na tarefa à sua frente. Era uma cena de combate ao fogo. Se ele baixasse a guarda, um acidente poderia acontecer a qualquer momento.
E foi exatamente o que ocorreu.
— DIANDRE, SAI DAÍ!
Alguém gritou. No instante seguinte, Deandre viu uma enorme árvore desabando em sua direção… e congelou no lugar.
* * *
‘O que eu faço?’
Grayson estava consumido pela ansiedade. Não importava o que dissesse ou fizesse, Dane simplesmente se recusava a olhá-lo. Será que tudo ia acabar assim? Por que diabos ele tinha agido daquele jeito naquela hora? De onde tirou tanta confiança?
A distância entre eles agora era maior do que no dia em que se conheceram. Talvez não tivesse mais volta. Se fosse esse o caso, se tudo realmente chegasse ao fim…
‘O que vai ser de mim?’
Só de imaginar, um vazio profundo tomou conta da mente dele. Não era medo. Era algo que ele sentia pela primeira vez, como se o chão desaparecesse sob seus pés e ele caísse em um abismo sem fim. As pontas dos dedos formigavam, e ele abriu e fechou os punhos várias vezes, tentando afastar aquela sensação.
‘Como eu faço para consertar isso…?’
Foi então que aconteceu. Ele viu uma grande árvore cair em direção a alguém.
Grayson não conseguiu distinguir quem era, só sabia que não era Dane. Mas, no meio do caos, um pensamento passou como um raio pela sua mente. Assim como quando salvou a gata de Dane… E se ele salvasse alguém de novo, talvez…!
— Miller, cuidado!
Ouviu alguém gritar, mas já era tarde. Grayson já tinha se jogado para a frente.
Aquilo não tinha nada de altruísta. Não se tratava de heroísmo ou de colocar a própria vida em risco pelos outros. Tudo o que ele queria era uma coisa: recuperar a atenção de Dane. Era sua última aposta.
Talvez, só talvez, se fizesse isso, Dane voltaria a enxergá-lo.
O estrondo foi ensurdecedor. O tronco queimado passou a centímetros dele antes de atingir o chão com um impacto violento.
Diante da cena, Deandre ficou paralisado, com os olhos arregalados e o corpo tremendo. Foi difícil de acreditar.
‘O Miller… me salvou…? O Grayson Miller…?’
— Miller! Deandre!
— Vocês estão bem?! Se machucaram?!
— Meu Deus, o que foi isso…?!
Os colegas correram até eles, disparando perguntas. Mas Deandre ainda estava em estado de choque. Ele quase tinha sido esmagado por uma árvore em chamas, e quem o salvou foi justamente Grayson Miller. Esses dois fatos o deixaram profundamente abalado.
Enquanto um dos bombeiros o ajudava a se levantar, os outros se voltaram para Grayson, agora cheio de elogios.
— Miller, isso foi incrível!
— Acho que te julguei mal… Você é mesmo um dos nossos.
— Miller, não, Grayson! Você é um herói! Já salvou duas vidas!
O barulho das vozes, as palavras de admiração… Nada disso chegava aos ouvidos de Grayson. Ele não tinha arriscado a vida por isso. Não queria reconhecimento. Só queria uma coisa: que Dane olhasse para ele, só isso.
Mas, no meio daquela multidão, Dane não estava lá. Nem entre os que bateram em seu ombro antes de se afastarem. Claro que não estava. Ele sequer tinha notado.
— Hah…
Grayson soltou um riso fraco, quase um suspiro.Ao longe, ele viu Dane, de pé, jogando água nas chamas. Mesmo com todo esse alvoroço, ele nem sequer olhou para Grayson. Como se nada tivesse acontecido, ele continuava impassível, repetindo apenas a tarefa que lhe foi designada.
Nada. Nenhum olhar, nenhum sinal de que tinha visto qualquer coisa.
Como se Grayson nem existisse.
Foi nesse instante que Grayson finalmente entendeu o que estava sentindo.
***
— Bom trabalho, Dane.
— Até amanhã, pessoal. Vocês se esforçaram muito.
Depois de soltar as palavras de sempre, Dane saiu do vestiário e foi para o estacionamento. Seus passos seguiam o caminho de costume, até que notou alguém parado ao lado do seu carro. Nem precisava confirmar quem era – só havia um homem daquele tamanho em toda a região.
— Tsc.
Sem dizer nada, Dane clicou no controle da chave. As luzes do carro piscaram brevemente com o sinal sonoro.
— Dane.
No instante em que ele tentou passar direto e abrir a porta, a voz de Grayson o fez parar. E então, mais uma vez, ele repetiu aquelas palavras irritantes que já tinha falado inúmeras vezes antes.
— Me desculpe. Eu errei.
Dane ignorou-o, sentou-se no banco do motorista e estava prestes a fechar a porta quando Grayson disse algo inesperado.
— Eu sei que você não vai me amar para sempre.
Dane hesitou por um instante. Quando ergueu os olhos, viu Grayson sorrindo daquele jeito já tão familiar, os cantos da boca curvados para cima, como se nada fosse capaz de abalá-lo.
— Então é assim que é o sentimento de desespero?
Ele nem perguntou como era. Só afirmou. Como se estivesse saboreando a sensação de cair no fundo do poço. Dane ficou apenas observando-o por um momento, depois, sem dizer nada, fechou a porta. O veículo saiu do estacionamento e entrou na rua, deixando Grayson para trás – parado no mesmo lugar, como se pretendesse ficar ali para sempre. E Dane se afastou rapidamente, sem olhar para trás.
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Continua…
Água viva
Que dor </3
Bete
Gente, só eu que acho que a história está demorando para engrenar? O
Miller mesmo doidinho ainda é melhor do que o mala do Dane.
Duda
Aí kralho,eu devia ter esperado a história terminar antes de ler,meu coração não aguenta toda essa tensão