Deseje-me se puder - Capítulo 117
Mais um passo e já era.
Grayson sabia disso instintivamente. Se ele passasse desse limite, Dane ia reagir na hora. E talvez, depois disso, não tivesse mais volta.
Mas, mesmo assim, Grayson não podia simplesmente recuar. Se ele desistisse agora, nunca ia saber a verdade sobre Dane. O que ele escondia, que passado enterrado existia por trás daquele olhar. E ele precisava saber, mesmo que tivesse que apostar a própria vida nisso.
— Dane.
Dessa vez, ele suavizou o tom ao chamar o nome do outro.
— Nós somos namorados, não deveria haver segredos entre nós. Até agora, você nunca me contou nada sobre você. Eu não sei quantos familiares você tem, como foi sua infância. Eu nem sei que tipo de donuts você gosta. Isso faz sentido para você? Os casais contam tudo um para o outro, até as pequenas coisas.
Ele não estava mentindo. A maioria das pessoas constroi relações assim. Mas a palavra-chave aqui era “maioria”.
Dane se levantou lentamente. Quando ele endireitou as costas e ficou de pé, sua altura era muito maior do que antes.
— Não existe isso, seu idiota. Nem você, nem ninguém tem esse direito.
Ele cuspiu as palavras entre os dentes cerrados. Esse era o momento certo para Grayson recuar. O próprio instinto gritava para ele dar meia-volta. E não era difícil. Bastava calar a boca e pronto.
Mas, infelizmente, Grayson não era bom em parar.
— Dane, você sempre tenta me afastar. Isso não está certo, seria mais fácil para você se compartilhasse um pouco comi-…
— Cale a porra da boca!
O grito de Dane foi um soco no peito de Grayson, ele piscou, meio atordoado. Mas Dane não ia deixar por isso mesmo.
— Não me pressione! Eu não quero esse tipo de relacionamento! Só porque eu te deixei entrar um pouco, você acha que pode meter o nariz onde quiser? Não ultrapasse esse limite! Caralho!
— Dane, eu só…
— Não se intrometa!
Grayson tentou falar, mas Dane não parou.
— Você não é nada na minha vida, você é menos que poeira! E ainda quer o quê? Que eu me abra? Que eu te conte tudo? Você precisa saber sobre mim? Que merda você acha que é para exigir isso?! Seu maldito louco!
— Dane, não seja assim… Eu posso ajudar com qualquer coisa…
— Ajudar? Como? De que jeito?! Você acha que pode fazer alguma coisa por mim?
As veias do pescoço de Dane estavam saltando. Ele estava realmente furioso. Era a primeira vez que ele ficava tão bravo. Grayson precisava acalmar a situação. Precisava entender o que Dane queria, como ele poderia fazer algo por ele. Então, sem pensar muito, deixou escapar:
— Quer que eu mate aquele cara?
— O quê?
Dane congelou por um segundo. Vendo sua confusão, Grayson continuou falando com entusiasmo.
— Você queria matar aquele homem, não queria? Eu posso matá-lo por você. Devo fazer isso agora? O que você acha? Isso resolveria, não resolveria?
Dane ficou atordoado e sem palavras por um momento. O que diabos esse idiota está falando…?
Mas Grayson interpretou o silêncio de outro jeito e se apressou em continuar:
— Eu faço isso, Dane. Só me diz como. Me diga qualquer método que você quiser, qualquer método está bom. Então estará tudo bem, certo? Isso me torna digno de ser seu namorado, certo? Nós somos um casal, não é?
Grayson continuou repetindo as mesmas palavras, como se estivesse implorando. Quanto mais ele falava, mais o rosto de Dane perdia a cor. Grayson, que falava desesperadamente e cheio de esperança, começou a sentir um aperto estranho no peito, com a reação dele. Algo estava errado.
‘Isso não era o certo? Por que ele não estava feliz? Não era isso que o Dane queria? Então o que eu devo fazer? O que mais? Como?’
— Você é um maluco…
Demorou um tempo até Dane murmurar alguma coisa. Seu rosto, pálido como um fantasma, se contorceu em uma mistura de raiva, nojo e puro desprezo. Era exatamente o mesmo olhar que Ashley Miller mostrou para Grayson naquele dia.
‘Ah.’
Só então Grayson percebeu que havia cometido um erro. Seu rosto ficou pálido instantaneamente, e Dane, sem dizer mais nada, virou-se e foi embora.
— Dane!
Grayson chamou, desesperado, correndo atrás dele. Não foi difícil de alcançar. Agarrou o braço do outro, mas quando Dane virou para encará-lo, o olhar dele fez Grayson hesitar. Só por um segundo, mas mesmo assim, ele não soltou. Algo dentro dele gritava que, se soltasse agora, Dane iria embora para sempre.
— E… então o que eu devo fazer?
O ar parecia preso na garganta, e ele mal conseguia respirar direito. Tentou sorrir como sempre fazia, como se aquilo fosse resolver tudo. Mas dessa vez, sua boca nem se mexeu, os músculos do seu rosto pareciam ter travado. Mesmo assim Grayson, forçou as palavras:
— Nós somos um casal, certo? Eu posso ajudar com qualquer coisa. Me diga, eu farei qualquer coisa. Dane, por favor. Eu errei. Eu sei que errei.
Sua voz tremia, aumentando de volume sem que percebesse. Mas Dane só respondeu com uma única palavra:
— Me solta.
O rosto frio de Dane fez Grayson congelar no lugar. Dane soltou o braço com um movimento brusco e olhou para ele com um olhar cheio de raiva.
— Você é realmente insuportável.
Seu rosto estava cheio de hostilidade. Grayson lembrou. O tom e a expressão de Dane haviam voltado ao mesmo de quando se conheceram. De repente, ele sentiu um frio percorrer todo o corpo, como se o sangue estivesse sendo drenado.
— Dane…
Grayson chamou seu nome novamente, mas isso foi o máximo que conseguiu. Ele não conseguia se mover, mesmo vendo Dane se virar. Com uma mão ainda estendida no ar, ele apenas observou a figura de Dane se afastando.
Tinha chegado aqui com dificuldade.
Com a mente vazia, forçou-se a pensar. Será que tinha voltado à estaca zero?’
De repente, um calafrio percorreu sua espinha. O sol ainda queimava forte no céu, com o calor escaldante do oeste, mas ele só conseguia sentir frio.
‘Por que eu disse aquilo? Que efeito eu esperava que tivesse?’
No fim, só serviu para Dane erguer muros ainda mais altos. Agora ele jamais falaria qualquer coisa.
E se Dane nunca mais falasse com ele?
O que aconteceria com os dois agora?
Grayson continuou ali, pálido, imóvel, sem ter nenhuma resposta.
***
[Me desculpa, Dane. Eu errei.]
[Dane, vamos conversar.]
[O que você quer que eu faça? Eu farei qualquer coisa, por favor, fale comigo.]
[Dane, pelo menos leia minhas mensagens.]
[Dane…]
Grayson soltou um suspiro pesado enquanto encarava a pilha de mensagens não lidas. O número de mensagens acumuladas não mostrava nenhum sinal de diminuir. Antes, pelo menos, Dane lia as mensagens, mesmo que não respondesse. Agora, nem isso.
Até mesmo o hábito de enviar uma mensagem de vez em quando havia desaparecido. Nem um simples “OK”, nem um emoji de raiva, nada.
Dane passou a agir como se Grayson simplesmente não existisse. Se ele falasse alguma coisa, Dane só ignorava e seguia em frente. Se tentasse segurá-lo, ele se livrava à força. E, como se não bastasse, agora vivia arrumando desculpas para não estar no quartel: treinamentos, missões em outras regiões, qualquer coisa que o mantivesse longe. Era óbvio que ele estava evitando Grayson.
<Ultimamente está muito dedicado. É isso que eu gosto de ver!>
O chefe do batalhão deu tapinhas satisfeitos no braço de Dane, mas Grayson só se sentia ainda pior. Dane, que odiava o trabalho, que sempre fugia de qualquer responsabilidade, agora estava assumindo tarefas por conta própria. Isso significava que ele preferia encarar o inferno do que lidar com Grayson.
‘Ótimo. Maravilhoso. O que eu devo fazer?’
Grayson esfregou o rosto com uma das mãos e soltou outro suspiro. Não fazia ideia de como consertar essa merda. Se matar alguém fosse o suficiente para Dane voltar ao normal, ele faria sem hesitar. Mas, ao lembrar da expressão de Dane quando ele sugeriu isso, Grayson sabia que era algo que nunca deveria fazer.
‘Então, o que mais eu posso fazer?’
Ele tentou comprar algumas coisas para Darling e deixar na porta do quarto de Dane, mas no dia seguinte os itens estavam jogados bem na frente do próprio quarto de Grayson. Foi aí que entendeu: Dane só aceitava subornos de alguém que já havia derrubado suas barreiras emocionais.
A única coisa que ainda o impedia de sair de vez da mansão era aquela maldita promessa. De qualquer forma, Grayson deveria estar grato por Dane ter concordado em ficar por três meses. Isso lhe dava um pouco de tempo… Mas tempo para quê? Ele ainda não tinha ideia do que fazer.
E foi no meio de mais um suspiro frustrado que a sirene disparou, alta e estridente. Todos os bombeiros de plantão saíram correndo, e entre eles, claro, estava Dane.
Grayson não pensou duas vezes antes de ir atrás dele.
— Ei, o que foi?
Sem cerimônia, empurrou um cara que estava prestes a subir no caminhão e tomou seu lugar. O bombeiro ficou piscando em choque por um segundo antes de resmungar um “Tsk” e ir para outro veículo. Grayson nem deu bola e bateu a porta atrás de si. E lá estava ele. Dane.
Era a primeira vez que ficavam num espaço tão apertado juntos desde aquela briga. O cheiro do feromônio de Grayson, que estava nervoso, ficou mais forte, mas Dane nem se mexeu. Ele continuou olhando pela janela, como se Grayson fosse um fantasma. Com o coração apertado, Grayson seguiu para o local do incidente no carro.
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Continua…
Inoccent
Babadoooo
Duda
Paia