Deseje-me se puder - Capítulo 116
O berro ecoou e os bombeiros se entreolharam, claramente pegos de surpresa. Eles sabiam que precisavam impedir Dane imediatamente, mas a situação aconteceu tão rápido que ninguém reagiu a tempo. Enquanto isso, Dane já tinha se jogado em cima do homem, xingando sem parar.
— Eu vou te matar, seu desgraçado! Aquela criança, seu maldito!
— D-Dane!
— O que vocês estão esperando? Segurem ele, caralho!
— Dane, PARA!
Quando finalmente saíram do transe, os bombeiros se lançaram para cima dele. Mas Dane os afastou como um animal ensandecido e continuou espancando o homem sem piedade. Em segundos, o cara já estava coberto de sangue, jogado no chão, mas Dane não parecia nem um pouco satisfeito. Ele continuou socando, esmurrando, batendo sem parar.
— S-Socorro… me ajude… Por favor, me deixe viver, me deixe viver…
O homem tossiu sangue enquanto implorava, mas isso só atiçou ainda mais a fúria do Dane.
— Quer viver? VOCÊ MATOU A CRIANÇA, E AINDA QUER VIVER SEU FILHO DA PUTA? — Ele puxou o cara pelo colarinho e acertou mais um soco no rosto já arrebentado. — SEU LIXO. VOCÊ TEM QUE MORRER!
— DANE!
Os outros bombeiros, já em pânico, pularam nele de novo. Dessa vez, foram cinco ao mesmo tempo, e só assim conseguiram afastá-lo do cara. Mesmo assim, Dane ainda se debatia, chutando o homem caído no chão. Seus colegas, tentando contê-lo, acabaram levando uns socos e pontapés no processo, mas não soltaram. Enquanto os paramédicos cuidavam do homem, que havia perdido a consciência, Dane continuou a gritar.
— DEIXEM ELE! EU VOU MATAR ESSE DESGRAÇADO!
— Dane, CHEGA!
— Se acalma, porra!
— Cara, já deu! Você vai acabar matando ele DE VERDADE!
Apesar dos repetidos apelos dos colegas, Dane não se acalmou. Ele continuou a respirar pesadamente, com os olhos injetados de sangue, fixando o homem com um olhar furioso. Os colegas, perplexos, apenas se olharam, sem saber o que fazer.
***
Dane estava sentado à beira da estrada, com uma garrafa de água vazia na mão, a cabeça baixa. O time forense já tinha chegado e agora revirava os destroços do incêndio em busca de evidências. O homem espancado tinha sido levado às pressas para o hospital, e a polícia já tinha dito que tomaria seu depoimento. O próprio Dane também teria que depor, cedo ou tarde. Afinal, ele havia espancado alguém com base em meras suposições.
— Não sabemos nem se foi ele de verdade… — alguém murmurou.
— Pois é. Não há nenhuma evidência de que o homem fez algo.
— Mas o garoto estava dentro da casa, então quem mais seria?
— Mesmo assim…
Os cochichos iam e vinham até que Grayson olhou por cima do ombro, por um momento, seu rosto pareceu uma máscara, inexpressivo e frio. Era só um olhar, mas o suficiente para fazer os outros bombeiros congelarem e se afastarem rapidinho, como se nada tivesse acontecido. No fim, todos se dispersaram, menos Ezra, que ainda estava ali com uma expressão carregada de preocupação. Depois de um longo suspiro, ele deu dois tapinhas nas costas de Grayson.
— Todos estão preocupados. Se ele decidir processar, Dane terá sérios problemas e ainda poderá ser punido pela administração…
Ao ouvir isso, Grayson sorriu levemente. Foi um daqueles sorrisos automáticos, então Ezra pensou que ele tinha entendido o que quis dizer. Pelo menos até ouvir a resposta.
— Obrigado por me avisar, Ezra. Por pouco não enrolei uma mangueira no pescoço daqueles babacas e pendurei numa árvore.
O tom de voz era leve, mas as palavras… eram assustadoras. Ezra piscou, confuso, e encarou Grayson. Quando percebeu que ele não estava brincando, sua expressão ficou visivelmente tensa. Antes que conseguisse formular qualquer resposta, Grayson desviou o olhar para Dane e perguntou:
— Ele faz isso com frequência?
Nem precisava especificar o que era “isso”. Ezra entendeu na hora.
— Não. Eu nunca vi ele tão descontrolado assim. Ele sempre fica sensível quando vê um animal ou uma criança machucada, mas nunca vi ele atacar alguém com tanta fúria, como se quisesse matar…
Ezra balançou a cabeça, e Grayson olhou para ele de relance.
— Você sabe se algo aconteceu com o Dane?
A pergunta era óbvia. O que tinha feito Dane reagir daquele jeito? Mas Ezra só deu de ombros, meio sem jeito.
— Dane nunca fala muito sobre ele mesmo. Descobri que ele tem uma gata só depois de meses trabalhando juntos.
— Tsk.
Grayson estalou a língua, impaciente. Só tinha inútil por ali. Não valia a pena continuar essa conversa. Sem dizer mais nada, ele se virou e foi até onde Dane estava.
Dane estava sentado no chão, isolado.
‘Ah.’
De repente, Grayson se lembrou. Dessa vez, era o oposto daquele dia.
Quando ele resgatou a gata feia de Dane, foi ele quem estava exausto, sentado no chão, enquanto outro ficou de pé olhando para baixo. Agora, os papeis tinham se invertido.
Uma sombra pairou sobre Dane, que estava olhando fixamente para o chão. Lentamente, Dane levantou a cabeça e seus olhos se encontraram com os de Grayson. Por um momento, os dois apenas se olharam em silêncio. No fim, Grayson foi o primeiro a falar.
— Bonitão, por que está com essa cara?
Dane continuou olhando para ele sem dizer nada. Ele estava recebendo de volta as mesmas palavras que havia dito antes. Como ele deveria descrever esse sentimento?
— Ahhh…
Ele passou a mão pelos cabelos e suspirou, a voz exausta.
— Não é assim que se fala, seu idiota…
É claro que Grayson nunca tinha passado por uma situação dessas. Como diabos ele ia saber o que dizer? Pessoas normais simplesmente falavam as coisas naturalmente, mas esse cara tinha que processar tudo como se fosse uma equação matemática. Se ele não sabia o que dizer, só copiava o que já tinha ouvido antes.
Dane percebeu isso e riu baixinho, balançando a cabeça.
— Nessas horas, você pergunta se está tudo bem.
— Está tudo bem?
Grayson perguntou imediatamente. Dane olhou para ele em silêncio e depois acenou com a cabeça.
— Sim, eu estou bem.
E foi isso. Fim da conversa. Ele voltou a encarar o nada, como se não tivesse mais nada a dizer.
Grayson continuou parado, observando-o, mas não gostou da sensação que sentiu. Ele esperava que Dane continuasse a conversa, que dissesse mais alguma coisa. Mas não, ele só ficou quieto. Então, Grayson tomou a iniciativa de novo.
— O que aconteceu? Por que você fez aquilo?
Dessa vez, Dane nem olhou para ele. Só encarou algum ponto distante e respondeu, sem emoção nenhuma na voz.
— Sei lá.
A resposta foi curta demais. Grayson franziu a testa. De repente, ele percebeu que sabia muito pouco sobre Dane. As pessoas com quem ele tinha se relacionado antes eram completamente diferentes. Todas, sem exceção, contavam para ele cada detalhe insignificante de suas vidas – problemas no trabalho, dramas de família, até as coisas mais banais.
Mas Dane?
Dane nunca falou nada.
Grayson não sabia onde ele tinha nascido, se tinha família, se era alérgico a alguma coisa. Nem a porra da cor favorita dele. Nada. E não era só antes de começarem a namorar. Mesmo depois, Dane continuou sendo um livro fechado.
Grayson engoliu seco.
Era como se… se nada tivesse mudado. Como se ele não fosse diferente de qualquer outro colega do quartel para Dane. E isso? Isso era inaceitável. Grayson queria ser especial para ele. Ser tratado da mesma forma que os outros? Não, isso era ridículo.
— O que aconteceu?
Dane não reagiu à pergunta de Grayson. Ele continuou olhando para o horizonte, na mesma posição. Grayson apertou a mandíbula e insistiu, agora com a voz mais áspera:
— O que aconteceu para te deixar assim? Alguma coisa ruim aconteceu, não foi?
Sob pressão repetida, Dane, que havia ficado sentado em silêncio por um tempo, lentamente levantou a cabeça. Seu rosto, voltado para Grayson, já mostrava claramente uma expressão de rejeição.
— Você não precisa saber.
E foi isso. Uma frase curta, gelada e impessoal. Grayson sentiu algo dentro dele subir feito um soco no estômago. Ele não teve tempo de conter ou analisar o que era, e acabou deixando escapar:
— Como assim, eu não preciso saber?! Eu sou seu namorado! Eu deveria saber! Saber quem você é, o que você pensa! Fala, eu preciso saber. Dane! Eu tenho esse direito!
A voz dele foi subindo, ficando mais intensa. No final, ele estava praticamente gritando. Dane apenas o encarou. Seu rosto, antes só fechado, agora estava completamente gelado. E, de repente, o ar entre os dois ficou pesado.
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Continua…