Deseje-me se puder - Capítulo 115
Dane se virou com uma expressão irritada, apenas para dar de cara com Deandre olhando para ele, incrédulo.
— O que você está fazendo agora? Tá mesmo colocando o Miller pra trabalhar? Fala sério!
Deandre alternava o olhar entre Grayson e Dane como se não acreditasse no que estava vendo. Dane, respondeu no tom mais entediado possível:
— Esse desgraçado tem que fazer alguma coisa, não dá pra deixar ele só assistindo. Ensinei como se usa a mangueira, então ele deve ser capaz de fazer isso.
— Você ensinou? Você? O Miller?
Deandre perguntou novamente, agora parecendo ainda mais chocado.
— Sim.
O quê? Dane Striker, o cara que sempre reclama de qualquer esforço, teve paciência para ensinar algo a alguém? Deandre arregalou os olhos, perplexo. Mas Dane, como se aquilo fosse óbvio, apenas acrescentou:
— Quanto mais rápido terminarmos isso, mais rápido eu posso ir descansar, seu imbecil.
— Ah.
Ok, essa era uma justificativa plausível. Esse cara sempre reclamava com uma cara de tédio toda vez que tinha que sair para uma missão. Se tinha alguém que odiava trabalhar, esse alguém era ele. O sujeito era praticamente um preguiçoso profissional.
…Ainda assim, era difícil acreditar que ele teria feito um esforço desses só para ir embora mais cedo.
Deandre, finalmente sem argumentos, soltou um suspiro, então Dane o dispensou com um aceno preguiçoso de queixo.
— Faça seu trabalho e não fique perdendo tempo à toa.
— …Tá bom.
Sem mais perguntas, Deandre se retirou. Assim que ele saiu do campo de visão, Dane lançou um olhar de soslaio para Grayson. O desgraçado, como se nada tivesse acontecido, soltou seu sorriso característico.
— Quantas vezes eu tenho que dizer para você parar com essa cara?
Não era o momento certo para segurá-lo e discutir. De todos os lados, o som do fogo queimando e os gritos dos colegas se misturavam em um barulho ensurdecedor. Dane rapidamente instruiu Grayson sobre o que fazer e colocou o equipamento. Precisavam entrar no prédio.
Grayson seguiu as instruções, pegou a mangueira e se moveu para começar a jogar água. Assim que ele se posicionou, Dane abriu a água imediatamente. Um jato forte caiu sobre as chamas, criando um arco-íris de fumaça.
Dane deu um tapinha no ombro dele.
—Bom trabalho, continue assim.
Com isso, ele foi até Ezra, ambos já estavam prontos para avançar.
— Tem alguém dentro?
Com a pergunta de Ezra, Wilkins acenou com a cabeça.
— Todos foram evacuados. Vocês devem entrar primeiro…
Antes que ele terminasse a frase, Dane percebeu um homem um pouco afastado, observando tudo com uma expressão vazia. Wilkins seguiu o olhar dele e resmungou:
— Ah, é o dono da casa. Ele disse que voltou do trabalho e viu a casa em chamas. Foi ele que chamou a emergência.
— Ele mora sozinho?
— Sim. Se divorciou. A esposa foi embora e… bem, agora ele perdeu até a casa.
O homem estava parado, olhando para a casa em chamas, como se estivesse em transe. Com a partida da esposa e agora perdendo tudo no incêndio, era compreensível que ele estivesse em choque. Dane até sentiu que podia entender um pouco como ele se sentia. Talvez porque sabia exatamente o que era ver seu mundo pegando fogo e não poder fazer nada a respeito.
Enquanto Dane e os outros ainda prestavam atenção no que Wilkins dizia, Deandre se afastou e voltou para junto dos outros bombeiros que estavam ocupados com suas tarefas. Assim que ele chegou, um deles, que claramente estava esperando uma oportunidade para perguntar, disparou sem rodeios:
— E aí, que merda tá rolando?
O assunto, obviamente, era Grayson. Deandre deu uma olhada por cima do ombro, na direção de onde tinha vindo, e respondeu:
— Sei lá, parece que o Dane ensinou alguma coisa para ele. Deve ter pensado que seria útil se o Miller fizesse pelo menos alguma coisa…
— Útil até pode ser, mas será que aquele idiota vai dar conta?
Outro bombeiro comentou com desconfiança. Logo, a conversa virou uma corrente de comentários espalhados por todo lado.
— Quem confiaria no Miller? O Dane agora confia nele?
— Se ele não causar um acidente, já estamos no lucro.
— De qualquer forma, vamos checar de vez em quando. Todo mundo está ocupado, mas…
— É, se parecer que algo está errado, temos que ir lá e consertar imediatamente.
Os bombeiros, que haviam feito um rápido high-five, começaram a se mover rapidamente para realizar suas tarefas. Enquanto isso, Dane e Ezra finalmente entraram no prédio em chamas.
***
Lá dentro, boa parte da casa era só cinzas. A água que caía sobre as estruturas queimadas deixava tudo encharcado, o teto ameaçava desabar em alguns pontos e o espaço útil dentro do lugar era mínimo. Pisando sobre os destroços, Dane analisou o interior do que restava da casa, desviando dos móveis tombados e das paredes que haviam desabado. Como já havia sido informado, não havia sinais de pessoas.
Enquanto manuseava a mangueira do extintor que carregava no ombro, apagando as chamas remanescentes, o som de coisas queimando e desmoronando continuava a ecoar.
— Parece que está quase no fim.
Ezra apareceu de outro cômodo, observando o estrago.
— Será que a denúncia foi feita tarde? Como queimou tanto assim…
Até fazia sentido, já que o dono disse que só viu o incêndio quando chegou do trabalho. Mas então… se ninguém estava aqui, como diabos o fogo começou?
— Parece que o fogo começou aqui
Enquanto entrava no cômodo completamente enegrecido e reduzido a cinzas, Ezra comentou. O lugar parecia ser um quarto infantil – ou pelo menos, o que restava dele. Entre os destroços, ainda era possível distinguir os restos carbonizados de alguns brinquedos e de uma pequena cama infantil, embora quase irreconhecíveis. Enquanto apagavam os últimos focos de incêndio, continuaram examinando o ambiente, até que…
— …?
Dane parou ao se virar para a cama. Algo parecia estranho. Debaixo da cama, havia algo que não deveria estar lá…
— Dane?!
Ezra chamou seu nome, surpreso ao vê-lo repentinamente se abaixar e olhar sob a cama, então ele se aproximou e, no momento em que seus olhos pousaram no que estava ali, seu rosto perdeu toda a cor. Ezra prendeu a respiração, tomado pelo choque.
Ali, encolhido embaixo da cama queimada, estava o corpo de uma criança. Pequeno e frágil, completamente enegrecido pela fuligem e pelo fogo.
Dane, agindo rapidamente, puxou a criança para fora. Mas no instante em que a segurou, seu corpo ficou rígido. Entre as partes do corpo que ainda tinham pele intacta, havia hematomas e cortes, ferimentos profundos que nada tinham a ver com o fogo. Quase não havia um pedaço de pele ileso.
— O que… o que é isso? — Ezra murmurou, a voz trêmula.
Qualquer um podia ver que aquelas feridas não tinham sido causadas pelo incêndio. Havia algo muito, muito errado naquela cena.
Sem perder mais tempo, Dane pegou a criança nos braços e correu para fora o mais rápido que pôde.
***
“Esses caras acham que eu sou um completo idiota.”
Grayson, segurando a irritação que lentamente crescia, focou apenas em despejar água no fogo. Desde o começo, os outros colegas não paravam de olhar para ele de relance. Ele sabia muito bem o que aqueles olhares significavam. Eles estavam ansiosos, observando para ver se ele cometeria algum erro. Grayson só conseguia achar aquilo ridículo.
Era só jogar água, porra. Quão difícil isso podia ser?
Além disso, ele estava levando a coisa a sério. Não por causa deles, claro.
Ele só queria que, quando Dane voltasse, visse que ele estava sendo útil. Que soubesse que poderia contar com ele. E, quem sabe, talvez até ganhasse um beijo…
Foi nesse momento, quando um pequeno sorriso começava a se formar em seu rosto, que ouviu um burburinho vindo de onde estavam os paramédicos. Não demorou muito para entender o motivo. Dane havia acabado de sair correndo de dentro da casa, segurando uma criança nos braços.
— Oxigênio! Rápido, tragam oxigênio!
— Dane, aqui! Deita ela aqui, depressa!
— Preparem *RCP! Vamos, rápido…!
(RCP significa Reanimação Cardiopulmonar. É um procedimento de emergência usado para tentar reverter uma parada cardíaca. Basicamente, envolve compressões no peito para manter a circulação sanguínea e, se necessário, respiração boca a boca para fornecer oxigênio.)
O caos tomou conta do lugar. Os paramédicos correram de um lado para o outro, tentando reanimar a criança. Mas não demorou para que a agitação se transformasse em silêncio. A atmosfera ficou pesada. Mesmo tentando desesperadamente, já sabiam a verdade: era tarde demais.
Ezra colocou a mão no ombro de Dane, que olhou para o nada, imóvel.
— Nós já sabíamos quando encontramos ele, já era tarde demais.
Dane olhou para ele, confuso, e depois voltou o olhar para a criança. Ele deixou os ombros caírem, tirou o capacete e cobriu o rosto com uma mão. Entre os dedos, o que dava para ver do pequeno corpo eram os hematomas e as partes queimadas. O corpo caído não mostrava nenhum sinal de vida.
Quanto medo ele deve ter sentido naquele incêndio. Aquele garotinho tinha ficado sozinho no meio do fogo, aterrorizado, sofrendo, gritando por ajuda. Esperando. Esperando tanto.
Dane cerrou os dentes.
Um calor diferente subiu dentro dele – não era o fogo ao redor, e sim a raiva. Ele levantou a cabeça, olhando na direção do dono da casa.
O homem ainda estava lá. O tempo todo, parado. Só assistindo, como se aquela confusão não fosse com ele, apenas piscando os olhos.
Algo estalou dentro de Dane.
— Dane?
— Ei, onde você está indo?!
Os gritos atrás dele não importavam. Ele avançou.
Grayson, que ainda jogava água, parou e seguiu Dane com o olhar. E então, no segundo seguinte.
PAH!
Um soco forte ecoou no meio do silêncio. O homem caiu no chão com o impacto.
— Foi você, não foi?
Dane gritou, sua voz estava carregada de ódio. Atrás dele, os bombeiros assistiam à cena, congelados.
Ele avançou mais um passo, os punhos cerrados.
— Você matou ele, seu desgraçado?!
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°
Continua…