Deseje-me se puder - Capítulo 114
— Isso é um mal-entendido…
Foi tudo o que Dane conseguiu dizer. O suor frio escorria por suas costas e uma dor de cabeça começou a se formar.
— Eu já te disse da última vez, não aconteceu nada entre mim e Yeonwoo.
— Então por que diabos vocês estavam saindo juntos da loja?
Dane negou novamente, mas Grayson não cedeu. Seus dedos batiam levemente na tela do celular, apontando para a sacola de compras que Yeonwoo segurava. A logomarca da loja estava claramente visível, como se quisesse gritar para qualquer um que olhasse: “Sim, compramos um monte de coisas juntos.”
Sem espaço para explicações, Dane apenas abria a boca, sem conseguir continuar. Ele nem sequer se lembrava de quantos anos atrás aquela foto havia sido tirada.
Na época, Yeonwoo tinha pedido para ele acompanhá-lo a uma loja, e algum paparazzi desocupado resolveu registrar o momento. O inferno que veio depois foi uma experiência que ele fez questão de esquecer.
Dane cobriu o rosto com uma mão e soltou um gemido baixo. Já fazia anos. Ele nem lembrava mais que aquela foto existia, e agora ela estava ali, voltando para lhe dar um tapa na cara.
— Ele pediu ajuda para comprar algumas coisas, então eu só a ajudei, foi só isso.
Ele estava dizendo a verdade, mas até para seus próprios ouvidos aquilo soou como uma desculpa esfarrapada. Grayson estreitou os olhos.
— Você ajudando alguém com algo assim, sem ganhar nada em troca? Não me faça rir.
Surpreendentemente, Grayson conhecia ele muito bem. Dane rosnou, cerrando os dentes antes de responder:
— Ele me deu um colar para Darling da Tiffany. Feliz agora?
Só então o olhar de Grayson suavizou.
Dane, no entanto, se sentiu ridiculamente ofendido. Como se tivesse acabado de ser julgado e condenado por ser interesseiro. Ele sabia que não tinha como rebater aquilo, porque, bem… era verdade. Mas mesmo assim, a sensação era péssima.
Quando achou que o assunto tinha finalmente terminado, Grayson franziu o cenho de repente.
— Mas por que ele te pediu pra comprar isso?
— Sei lá, porra! Eu tenho cara de saber que merda eles estão fazendo entre eles? Seu filho da puta!
A expressão de fúria que tomou seu rosto finalmente fez Grayson recuar um passo.
— Tá bom, entendi.
— “Entendi” o quê?
Dane já ia encerrar aquele assunto de vez, quando Grayson simplesmente jogou outra bomba no meio da conversa:
— Então… quando vamos fazer? Eu tô pronto quando você quiser.
— Fazer o quê?
Dane perguntou com uma voz cansada. Ele já havia gasto muita energia e só queria descansar. Mas, quando Grayson mostrou a tela do celular novamente, seus olhos turvos recuperaram o foco instantaneamente.
Na foto, um homem estava amarrado, de olhos vendados e com uma mordaça na boca. E, claro, completamente nu.
Dane fechou os olhos na mesma hora e deu um passo para trás, como se aquilo tivesse contaminado sua retina. Grayson, franziu a testa e, apenas bloqueou o celular de novo, parecendo levemente incomodado com a reação exagerada. Dane abriu um olho com cautela, verificando se a imagem tinha desaparecido antes de finalmente se pronunciar:
— Mas que porra, por que caralhos eu faria esse tipo de coisa com você?
Ele enfatizou bem cada palavra, deixando claro seu desgosto. E foi então que Grayson, sem nem piscar, rebateu com a voz mais séria do mundo:
— Você já fez um monte de coisas com outros caras com quem passou só uma noite. Mas comigo, que sou seu namorado, não quer?
Dane ficou tão incrédulo que seu queixo caiu de novo.
— O quê…? Ei, quando foi que eu fiz algo assim…
Ele estava tão atordoado que até gaguejou, mas Grayson não perdeu tempo e continuou despejando palavras.
— O Yeonwoo te pediu ajuda porque sabia que você é experiente nesse tipo de coisa, não é? Se você tem experiência o suficiente para sair dando conselhos de compras para os outros, quantas vezes já fez isso, afinal? E se é tão acostumado assim, nada mais justo do que fazer comigo também! Por que comigo não quer, hein? Por quê?
Dane simplesmente travou. O problema é que Grayson tinha um ponto. Do jeito que ele falou, até parecia uma exigência bem razoável. Claro, isso não significava que Dane estava disposto a ceder.
— Só porque eu fiz com outros não quer dizer que eu tenha que fazer com você, meu bem.
Ele resmungou num tom cansado e levantou a mão para impedir qualquer argumento que Grayson estivesse prestes a soltar.
— Há momentos em que quero fazer essas coisas e momentos em que não quero. Depende da pessoa também… Enfim, não quero fazer com você, não estou a fim.
Mas a imagem da foto ainda estava gravada na sua mente, impossível de apagar. E, pior, quando ele tentou imaginar Grayson naquela mesma situação, um arrepio percorreu sua espinha.
‘Deus me livre. Eu não quero mais ver esse cara pelado…!’
Se aquele maldito aparecesse pelado na sua frente de novo, Dane tinha certeza de que desenvolveria um trauma. Se isso fosse uma terapia de choque para mudar o estilo de vida promíscuo de Dane, era um método extremamente eficaz. Só de lembrar daquela cena mais cedo, ele sentiu que nunca mais conseguiria ter uma ereção na vida.
Grayson ficou calado, apenas encarando Dane. Ele provavelmente estava preparando outro argumento para insistir. Dane sentiu o peito apertar com a antecipação, mas, surpreendentemente, Grayson apenas suspirou e se rendeu.
— Tudo bem, então.
Diferente de antes, Grayson estava com o rosto cabisbaixo e os ombros caídos. Era óbvio que ele estava decepcionado, e Dane hesitou por um momento.
‘Esse desgraçado… Eu disse claramente para ele não fazer drama.’
Mas hábitos são difíceis de mudar. Era óbvio que essa expressão abatida do Grayson era só teatro. Mesmo assim…
Dane soltou um longo suspiro e passou a mão pelo rosto.
— Na próxima vez… —Ele murmurou, derrotado. — Na próxima vez a gente vê isso. Hoje eu não tô com cabeça pra isso.
— Sério?
Grayson imediatamente recuperou a animação, como se tivesse absorvido toda a energia que ainda restava em Dane. Enquanto ele se iluminava, Dane se afundava, sua expressão estava completamente esgotada.
— Pronto, agora chega. Eu vou dormir-
— Ei, espera!
Grayson o chamou, apressado, antes que ele conseguisse se levantar. Dane virou para encará-lo com a irritação estampada no rosto, mas Grayson, indiferente, apenas lhe estendeu um pacote.
Dane reconheceu de imediato a sacola de compras. Era da loja de grife que eles tinham visitado recentemente. Ele mesmo tinha insistido para que Grayson comprasse alguma coisa.
— É um presente. Para comemorar nosso aniversário de 30 dias.
Dane ficou perplexo ao saber que Grayson havia comprado um presente para ele. Ele pegou a sacola, ainda hesitante. Grayson, é claro, o observava com expectativa.
— Vai abrir aqui, certo?
Ele sorriu. Afinal, se estava dando um presente, nada mais justo do que ver a reação da pessoa. E, conhecendo Grayson, era óbvio que ele estava morrendo de curiosidade.
Dane olhou para dentro da sacola sem pensar muito. Ele nem cogitou o que poderia estar ali quando tirou a caixa delicadamente embrulhada. Mas no instante em que abriu o pacote, ele parou de respirar. Literalmente. Como se até respirar tivesse se tornado impossível.
— Tcharããããn!
Grayson, sem um pingo de vergonha na cara, fez um efeito sonoro ridículo. Dane continuou encarando o conteúdo da caixa em silêncio, mas isso não impediu Grayson de enfiar a mão lá dentro e puxar o “presente”. Com um brilho nos olhos, ele ergueu o item e pressionou diretamente contra o peito de Dane.
Grayson, que havia colocado um pedaço de tecido provocante sobre o peito de Dane, soltou um suspiro de satisfação.
— Perfeito…!
As bochechas dele chegaram a corar de empolgação, enquanto Dane apenas o observava, sem expressar uma única emoção. Lentamente, ele afastou a mão que segurava aquele pedaço de pano e o agarrou com firmeza. O próximo passo era óbvio.
Dane desceu o braço com toda força, usando o sutiã como um chicote contra Grayson.
— Morra! Morra, some da minha frente, seu pervertido desgraçado!
— Hehehe, hehehehehe!
Mesmo sendo chicoteado sem piedade, Grayson apenas soltava risadas histéricas, como se estivesse se divertindo horrores.
Dane teve que se segurar para não enforcá-lo com a peça íntima. Mas conseguiu resistir a tentação de estrangulá-lo com o sutiã. Depois de fazer Grayson prometer que nunca mais celebraria nenhum tipo de aniversário.
***
Com o som estridente da sirene, o caminhão de bombeiros correu pela estrada. Dentro do veículo, como sempre, a tensão era palpável, e os bombeiros se apressavam para preparar os equipamentos.
— Parece que o fogo não se espalhou para os lados como da última vez. Vamos apagar isso rápido.
Diante das palavras de Wilkins, a equipe inteira respondeu com um sincronizado “Sim, senhor!”. Pouco depois, chegaram ao local do incêndio. Como o chefe havia dito, apenas uma casa estava em chamas.
Ao descer do caminhão, Dane franziu o cenho ao observar as labaredas. O fogo estava forte, mas pelo menos não parecia ter se espalhado. Ele rapidamente jogou uma mangueira sobre o ombro, se preparando para a ação.
Então, sentiu uma sombra pairando sobre si.
Ao levantar a cabeça, viu Grayson o encarando.
Eles trocaram um olhar silencioso por um instante. Depois Dane, sem dizer nada, tirou a mangueira do ombro e a colocou no braço de Grayson.
O gesto fez Deandre arregalar os olhos antes de gritar, alarmado:
— Ei, espera aí! O que você está fazendo?!
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Continua…