Deseje-me se puder - Capítulo 109
O Mundo Inteiro Parece Meu
Nuvens no céu, pássaros cantando nas árvores
E ao meu lado, você, tão adorável…
A melodia açucarada de uma música pop romântica preenchia o carro, criando um contraste absurdo com a realidade: havia dois homens sentados ali, sem o menor clima para esse tipo de trilha sonora. Se estivesse sozinho, Dane jamais teria dado play nisso. Mas havia uma única razão para ele não estender o braço e simplesmente desligar: se fizesse isso, corria o risco de Grayson colocar A Maldita Música do peitos peitos para tocar de novo. E isso, definitivamente, era um cenário pior.
Pelo menos a voz da cantora era agradável e ele conseguia tolerar.
Do outro lado, no banco do motorista, Grayson estava no seu próprio mundinho. Assobiava baixinho, batucava no volante, claramente de ótimo humor. Dane, sentado no banco do passageiro, olhou para ele de relance e pensou: “Bem, tanto faz.” Então, reclinou o assento, esticou o corpo e simplesmente fechou os olhos para descansar. Ainda faltava muito para chegarem ao destino.
Dois dias antes, Dane havia descoberto que a caixa de transporte de Darling estava rasgada. Não era algo urgente, mas era melhor resolver antes que precisasse de uma nova às pressas. Por isso, decidiu usar sua folga para ir às compras.
O problema começou quando ele saiu da mansão naquela manhã e deu de cara com Grayson esperando na entrada.
‘Como diabos ele soube que eu estaria de folga?’
Os bombeiros trabalhavam em escalas, então coincidir um dia de descanso era mais sorte do que planejamento. Mas aí, Dane se tocou.
‘Ele deve ter bisbilhotado minha escala de trabalho.’
A essa altura, nada disso era realmente surpreendente. Então, ignorando a presença inconveniente, Dane apenas tentou entrar no carro e ir embora.
Mas Grayson se colocou na frente da porta do motorista, bloqueando sua passagem. E então, com um brilho radiante nos olhos, ele fez uma proposta absurda:
— Se me deixar ir com você, eu compro qualquer coisa que você quiser
Dane estreitou os olhos.
Se Grayson não tivesse se declarado para ele algum tempo atrás, essa seria uma oportunidade de ouro para explorar o outro até o osso. No entanto, Dane tinha uma regra: nunca aceitava dinheiro de alguém que gostava dele. Não dava para abrir brecha para depois ficar devendo favores.
Em um dia normal, ele teria xingado Grayson até fazê-lo se arrepender de ter nascido. Mas, naquele momento, apenas franziu a testa, segurou o nariz dele e o balançou de leve, sem machucar.
— Quantas vezes eu já disse para você não gastar dinheiro comigo, hein?
Dane tentou empurrá-lo para o lado e sentar no banco do motorista, mas Grayson o segurou novamente.
— Eu também tenho direitos!
Dane parou e lançou um olhar entediado para ele.
‘Enlouqueceu de vez?’ Grayson, como sempre, continuou com sua lógica torta, absolutamente seguro do próprio raciocínio.
— Darling é sua gata, e você é meu, então logo, tudo que envolve Darling também me diz respeito. Em outras palavras, não estou gastando dinheiro com você, estou gastando com Darling.
Dane olhou para o rosto de Grayson com uma expressão vaga. Parecia que Grayson também sabia que estava falando uma besteira sem sentido, pois sua expressão estava um pouco constrangida. Quando Dane tentou entrar no carro sem dizer nada, Grayson rapidamente o bloqueou novamente.
— Três horas.
Dane hesitou ao ouvir isso, e Grayson imediatamente acrescentou:
— Você prometeu passar pelo menos três horas comigo por dia. Isso significa que pode muito bem cumprir sua promessa agora. Isso também se aplica aos dias de folga.
Desta vez, ele parecia realmente confiante, como se soubesse que tinha vencido. Dane ficou ali, apenas o encarando. Grayson estava certo de que ele não conseguiria empurrá-lo para o lado desta vez.
Grayson sorriu, vitorioso, e imediatamente correu para seu próprio veículo, abrindo a porta do passageiro. Dane caminhou até lá sem pressa, sentou-se e fechou a porta.
Assim que ele se acomodou, Grayson contornou o carro e se sentou ao volante, pronto para partir.
E foi assim que os dois acabaram indo juntos ao shopping.
‘Isso… Por quê? Como assim?’
Depois de cochilar por um tempo, Dane acordou e percebeu que estavam em um lugar completamente inesperado. Do lado de fora, a paisagem era tão absurda que ele piscou algumas vezes para ter certeza de que não estava sonhando.
O carro deslizava por uma rua repleta de lojas de luxo – o tipo de lugar que ele só visitava em duas situações: quando precisava apagar um incêndio ou quando algum milionário distraído botava fogo na própria casa tentando flambear alguma coisa. As vitrines exibiam produtos sem preço, o que significava que, se você precisasse perguntar quanto custava, já não deveria estar ali.
— O quê…? Por quê…? Como assim…?
As palavras saíram emboladas de sua boca. Ele virou a cabeça em direção ao motorista, esperando alguma explicação racional, mas Grayson apenas assobiava, totalmente despreocupado.
— Ei… O que diabos-
— Chegamos.
Grayson reduziu a velocidade antes que Dane conseguisse terminar a frase. Assim que o carro parou na calçada, um pequeno exército de homens de terno surgiu do nada, abrindo as portas para eles como se pertencessem à realeza.
— Bem-vindo, senhor Miller.
— É um prazer recebê-lo.
— O senhor está especialmente elegante hoje.
O coro de bajulação começou imediatamente. Para Dane, que estava acostumado a trocas ocasionais de piadas sem graça com os funcionários do mercado, aquilo era estranho e desconfortável. Mas Grayson nem piscou, não respondeu, não acenou, sequer olhou para os homens. Simplesmente saiu do carro e marchou em direção à loja.
Assim como os que os receberam, o funcionário que segurava a porta calculou seu passo perfeitamente para abri-la no exato momento em que Grayson se aproximou. E então, antes que percebesse, Dane estava dentro de uma boutique cara o suficiente para que ele se sentisse pobre apenas por respirar ali dentro.
— Bem-vindo, senhor Miller!
O gerente surgiu com um sorriso brilhante e, de relance, lançou um olhar para Dane. E Dane viu. Ele viu os olhos do homem o analisarem dos pés à cabeça em menos de um segundo.
O cabelo ruivo desgrenhado. A jaqueta de couro barata. A camiseta gasta e com a gola meio torta. O jeans velho, desgastado aqui e ali. Os tênis cobertos por uma leve camada de poeira.
Análise concluída, o gerente imediatamente esqueceu que ele existia e voltou a se concentrar em Grayson.
— Faz tempo que não nos visita. O produto que solicitou já está pronto. Por aqui, por favor. Gostaria de algo para beber?
Sem a menor vergonha na cara, Grayson pediu um daqueles sucos de fruta absurdamente doces que só crianças deveriam gostar. Então virou-se para Dane:
— E você?
A resposta veio automática.
— Café.
O gerente manteve o sorriso profissional e perguntou com delicadeza:
— Certo. Que tipo de café? Espresso, latte, cappuccino…?
— Americano. Em uma caneca. Cheia.
— Ah… Sim, claro.
Houve uma breve hesitação, mas o gerente logo se recompôs, respondendo com a mesma educação de antes.
Eles foram conduzidos até um lounge privativo no fundo da loja. O sofá era amplo e absurdamente confortável, e Dane se largou ali sem a menor cerimônia, cruzando uma perna sobre o joelho e recostando-se contra o encosto.
As paredes eram cobertas por espelhos, e do teto pendia um lustre tão chamativo que o brilho refletido quase doía nos olhos. Quando finalmente desviou o olhar para frente, notou a verdadeira atração principal: uma coleção de produtos dispostos que ocupava uma parede inteira. Mesmo sem que ninguém precisasse dizer, ele sabia que eram os itens reservados para Grayson.
— Obrigado por aguardarem!
Uma funcionária se aproximou, sorrindo radiante, e colocou diante de cada um deles uma bandeja com as bebidas e algo que, supostamente, deveria ser uma sobremesa.
Dane olhou para o que parecia um pedaço de bolo, mas que, na verdade, era um quadrado minúsculo, artisticamente decorado, provavelmente custando o mesmo que um jantar completo. Pegou um e jogou na boca, mastigando devagar enquanto pensava:
‘Quanto será que custa esse único pedaço de doce?’
‘Isso daria para comprar ração para o Darling por um mês…’
No momento em que esse pensamento passou pela cabeça de Dane, o sabor doce e um aroma frutado se espalhou por sua boca. Ele hesitou por um instante, depois mastigou devagar e reconsiderou sua indignação inicial.
‘Afinal, não é meu dinheiro mesmo.’
Com essa lógica impecável, ele simplesmente continuou comendo, colocando um pedaço de cada sobremesa na boca enquanto tomava café. Foi nesse momento que o gerente voltou, e parou educadamente diante deles.
— Senhor Miller, agora está criando um gato? E como vai Alex, ultimamente?
O tom era casual, o rosto expressando um interesse perfeitamente equilibrado – nem íntimo demais para ser invasivo, nem distante o suficiente para soar indiferente. Um nível de interação social tão bem treinado que provavelmente fazia parte do contrato de trabalho. Enquanto Dane avaliava essa habilidade peculiar, Grayson respondeu, sem a menor cerimônia:
— Alex está bem. Mas o gato não é meu, é dele. Eu só vim acompanhar.
— Ah… entendo.
O gerente soltou um murmúrio compreensivo e, então, se virou para Dane com uma expressão completamente diferente. Agora, ao invés de um cliente respeitável, ele estava diante do verdadeiro consumidor.
— Então, é o senhor quem veio fazer as compras hoje?
— Exato.
Grayson respondeu sem hesitação, enquanto Dane, prestes a tomar um gole de café, congelava no lugar. Primeiro, seus olhos se moveram, depois sua cabeça virou lentamente, refletindo com pura incredulidade. Mas Grayson, alheio ou simplesmente indiferente ao olhar fulminante, sem demonstrar o menor pingo de vergonha, simplesmente apontou para o gerente e decretou com um sorriso malicioso:
— Mostre tudo o que tiver. Ele vai comprar tudo.
…Esse desgraçado tá de brincadeira?
O rosto do gerente se iluminou de alegria. O de Dane, por outro lado, perdeu toda a cor. Ele ficou completamente imóvel, encarando Grayson com uma expressão que oscilava entre o choque e o puro desespero.
°
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Continua…