Deseje-me se puder - Capítulo 107
Ashley continuava a encarar Dane com aquele tom frio, como se estivesse conduzindo um interrogatório.
— Então, no fim das contas, namorar o Grayson foi sua decisão, certo? Não foi algo que ele te forçou a fazer, por causa desse incidente infeliz?
Dane hesitou por um instante, mas acabou respondendo com um suspiro resignado:
— … Sim. Foi minha escolha.
Por mais que não fosse uma decisão tomada com empolgação, era a verdade. Quando Dane finalmente admitiu, com uma expressão meio contrariada, Ashley prosseguiu:
— Ele parece bem convencido de que você o ensinou a sentir emoções. Você concorda com isso?
— O que?
Dane franziu a testa, sem entender direito aonde ele queria chegar. Ashley estreitou os olhos levemente.
— Você realmente acha que Grayson é capaz de sentir emoções?
O tom de voz estava carregado de ceticismo, como se a ideia de seu próprio filho ter sentimentos fosse completamente absurda. Como se fosse algo simplesmente impossível.
Ao ver essa reação, um sentimento de rebeldia surgiu dentro de Dane.
— É claro que sim. — Ele cruzou os braços, com o queixo levemente erguido. — Não sei por que o senhor acha o contrário. Bem, dizem que os pais são os que menos conhecem seus próprios filhos?
O sarcasmo foi intencional e Ashley percebeu. Sua expressão se fechou um pouco, uma ruga discreta surgiu entre as suas sobrancelhas. Era óbvio que ele não tinha gostado da resposta, mas Dane sequer se importava. Passou a vida toda sem ligar para a aprovação de ninguém, não seria agora que iria começar a fazer isso.
A única exceção a isso eram os animais – esses sim, ele fazia questão de agradar. Já gastou muito dinheiro comprando petiscos e falando em voz ridiculamente fofa para conquistar gatos ariscos. Mas humanos? Nem pensar.
Olhando para o ômega de olhos azuis que o encarava diretamente, Ashley finalmente abriu a boca, falando lentamente.
— É mesmo? Parece que você está bastante confiante de que conhece o meu filho muito bem.
— Não sei se muito bem, mas com certeza conheço alguns lados dele que você não conhece.
O olhar de Ashley se estreitou. Ele claramente não gostou da resposta, mas, surpreendentemente, sua presença permaneceu estável. Nenhuma mudança no feromônio, nenhuma explosão de raiva. Ele continuava frio, indiferente.
E isso surpreendeu Dane.
Ele tinha quase certeza de que Ashley explodiria de fúria ao ser confrontado diretamente. Mas não – o homem simplesmente não reagiu.
‘Ou ele tem um autocontrole absurdo, ou simplesmente não acha que essa conversa vale o esforço de se irritar.’
— Era só isso que tinha para dizer?
De repente, a voz de Ashley trouxe Dane de volta à realidade.
Dessa vez, ele não olhava mais para Dane, e sim para dentro do próprio paletó, de onde retirou um estojo de couro. Abriu-o calmamente e pegou um charuto.
— É bom saber que alguém tão bem informado sobre meu filho está ao lado dele. Ainda que eu tenha dúvidas sobre quanto tempo isso vai durar.
Dane observou enquanto Ashley cortava a ponta do charuto e acendia-o com um isqueiro de metal. Os gestos eram lentos, meticulosos, como se cada ação fosse calculada.
— Mas, enfim… não é ruim ter esperança.
Apesar das palavras, ele torceu os lábios em um sorriso que mal poderia ser chamado de riso.
O tom de voz, combinado com a expressão sarcástica, fez Dane franzir a testa. Pela primeira vez, ele teve a sensação de que estava ouvindo algo que Ashley sequer precisou dizer em voz alta.
‘Isso não significa nada.’
A frase ecoou na cabeça de Dane, mesmo sem ter sido dita. E foi nesse momento que algo dentro dele se moveu.
— Tenho uma pergunta.
As palavras saíram antes que ele pudesse evitar. Ashley não demonstrou surpresa. Apenas ergueu o olhar, impassível.
— Você já machucou Grayson?
O charuto parou no meio do caminho até a boca de Ashley. Ele ficou imóvel, completamente inexpressivo, como se estivesse analisando a pergunta palavra por palavra.
Dane, no entanto, não vacilou. Não desviou o olhar, não tentou se corrigir. Apenas esperou pela resposta. E então, num movimento controlado, Ashley baixou lentamente a mão que segurava o charuto. Seus olhos estavam vazios, insondáveis.
— Foi o que Grayson te disse? Que eu maltratava nele.
Sua voz baixa ficou ainda mais grave, quase assustadora, era um tom que faria qualquer um hesitar. Mas Dane nem piscou.
— Não. Na verdade, ele nem parece saber que sofreu abuso.
— Então? — Ashley levou o charuto de volta à boca enquanto fazia a pergunta, com o olhar ainda impassível. — Por que, exatamente, você acha que eu o maltratei?
— Porque eu vi e ouvi com meus próprios olhos.
Dane respondeu sem hesitação.
— Grayson me disse isso enquanto estava trancado em um porão. Mas o curioso é que ele nem sabia que isso era considerado abuso.
Ashley finalmente pareceu entender a situação e soltou uma risada curta, como se achasse a situação absurda.
— Então você acredita nele?
— Por que não me diz você mesmo? Isso realmente aconteceu?
A voz de Dane era firme, obstinada. Ele precisava dessa resposta. Sentia um peso no peito que só seria aliviado quando tivesse certeza. Ashley franziu a testa, agora visivelmente irritado.
— Você está me acusando de bater nele?
— Isso também está incluído.
— …Hah.
Ashley soltou um suspiro de incredulidade. Pela primeira vez, sua expressão fria vacilou. Ele chegou a abrir a boca e olhar para o nada, como se processasse o absurdo daquilo. Quando voltou a encarar Dane, sua expressão era carregada de algo próximo ao desprezo.
— Se eu tivesse encostado um dedo nas crianças, meu parceiro teria me chutado pra fora de casa no mesmo instante. Você acha que eu seria estúpido o suficiente para fazer algo que iria fazer o Koy me odiar?
— Então nunca bateu nele?
— Não só não bati, como também nunca maltratei!
A voz de Ashley finalmente subiu um tom, carregada de frustração. Ele soltou um suspiro longo, profundo, antes de levar o charuto aos lábios e dar uma tragada demorada. O silêncio pesou por um instante. Quando ele voltou a falar, sua voz estava mais calma, mas o olhar ainda carregava irritação.
— Eu apenas ensinei meus filhos a se protegerem. Pode ser que eu tenha exagerado nos métodos, mas o que mais eu poderia ter feito? Você acha que falar com carinho e ensinar com paciência ia funcionar? Eles simplesmente não entendiam! Grayson era uma bomba-relógio desde o dia em que nasceu, por causa dessa maldita genética!
A voz dele se intensificou, mas então, do nada, ele se calou. Um silêncio repentino tomou conta do ambiente. Na quietude, ele falou com uma voz mais suave, como se tivesse perdido o ímpeto:
— Striker, nós vivemos agradecendo que ele não cause danos irreparáveis a outras pessoas.
Ashley parecia estar despejando suas palavras com crescente intensidade, mas de repente parou. Ele puxou mais uma vez a fumaça do charuto e então perguntou:
— Então, e no porão? O que ele fez? Ele tentou fazer alguma coisa absurda, por querer ajudar alguém?
Dane hesitou. Pela primeira vez naquela conversa, não respondeu de imediato. Ao ver sua reação, Ashley soltou uma risada abafada, como se já esperasse aquilo.
— Claro que ele fez.
A voz carregava um cinismo evidente. Dane suspirou, ciente de que não adiantava esconder a verdade.
— Havia uma criança trancada no porão. Grayson escolheu ficar preso lá também para ajudá-la. Disse que era melhor ter alguém com ele do que ficar sozinho no escuro. Ele insistiu que só estava tentando ajudar a criança.
Ashley ouviu a explicação em silêncio, sem demonstrar nenhuma surpresa. Apenas continuou tragando o charuto como se já soubesse o desfecho antes mesmo de ouvir.
Dane percebeu na hora.
— Você não parece surpreso.
Ashley soltou uma risada curta. Claro, não havia nenhum sinal de alegria em sua expressão.
— Você acha que essa foi a primeira vez que isso aconteceu?
Ele estava visivelmente irritado, mas não disse nada por um tempo, apenas trago o charuto em silêncio e quando finalmente voltou a falar, sua voz era firme.
— Você me perguntou se eu abusei do Grayson, certo? Pois bem, minha disciplina foi severa, sim. Sabe por quê? — Ele nem sequer esperou por uma resposta antes de continuar. — Ele quase matou alguém antes mesmo de completar dez anos. Duas vezes. E da primeira vez, fez isso com as próprias mãos.
Dane ficou imóvel. A frase o atingiu como um soco no estômago. Ashley observou sua reação e continuou.
— E sabe quem foi a vítima? Foi o Koy. Ele tentou matar a própria família.
Dane sentiu um calafrio, mas Ashley nem pensou em lhe dar tempo para absorver a informação.
— O Koi não consegue sentir cheiros. O paladar dele também é praticamente inexistente. Grayson ficou curioso para saber se isso era verdade. Então, o que ele fez? Preparou um bolo e despejou detergente dentro. Koy quase morreu depois de comer aquilo.
A voz de Ashley, que até então soava objetiva, começou a ganhar um tom mais carregado. Quando ele falou novamente, sua frustração transbordou.
— Se eu tivesse chegado um pouco mais tarde, teria encontrado o corpo do meu marido jogado no chão.
Dane percebeu que a mão de Ashley tremia levemente enquanto segurava o charuto. Ele não comentou nada. Apenas observou enquanto o homem retomava o fôlego e continuava.
— Havia três crianças naquela sala além de Koy. Nenhuma delas chamou uma ambulância. Eles apenas observaram, curiosos, enquanto o Koy estava morrendo.
Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse tentando se acalmar. Apenas puxava a fumaça do charuto profundamente para dentro dos pulmões. Depois de um tempo, ele retomou a memória daquela época, falando em um tom baixo, como antes.
— Claro que o Grayson foi severamente punido. E sabe o que aquele garoto, que finalmente entendeu que não deveria matar pessoas com as próprias mãos, fez depois?
Dane, é claro, não tinha como adivinhar. Enquanto ele permanecia em silêncio, Ashley soltou um sorriso cínico.
— Ele tentou matar alguém de novo. Só que dessa vez, colocou outra pessoa para fazer isso por ele.
Os olhos de Dane se arregalaram. Seu estômago revirou.
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Continua..
•°Simp_Koynue°•
Jesus, nem os pais ficavam seguros com esses “monstrinhos”🤦♀️
Hikari
Senhor da Glória esse grayson