Capítulo 76
Deep Pivot — Capítulo 76
— Os adultos que te abandonaram…
Yeonwoo disse suavemente depois de ouvir a história de Seojoon.
— São pessoas realmente horríveis. Espero que sejam punidas em algum lugar.
Seojoon sorriu levemente e se virou para Yeonwoo. Seus cotovelos se roçaram, diminuindo um pouco a distância entre eles. Eles encontraram o olhar um do outro.
— Mesmo assim, conhecer pessoas boas depois foi uma bênção. As freiras do orfanato e meus pais adotivos eram pessoas maravilhosas. De certa forma, tive sorte. Há muitos pais no mundo que não valem a pena ter.
Assim que terminou a última frase, Seojoon sentiu uma pontada de arrependimento. De todos os dias, parecia uma referência indireta ao pai de Yeonwoo.
Nesse momento constrangedor, Seojoon hesitou. Mas o silêncio não durou muito, pois Yeonwoo fez uma pergunta inesperada.
— …Você veio aqui hoje para me trazer os resultados dos testes do Jeongwoo, não é?
Seojoon pareceu assustado.
— Como você sabia?
— Eu vi o documento no banco de trás quando você estava verificando o pneu.
— …Oh.
— Você ia me dizer que Jeongwoo não é meu irmão de verdade?
Mais uma vez, Seojoon ficou sem palavras. Mesmo que tivesse que compartilhar os resultados, não tinha planejado fazê-lo hoje.
— Quando você viu? Acho que não teve tempo de ler.
— Acabei de ver a capa.
Um momento de silêncio se seguiu enquanto Seojoon processava as palavras de Yeonwoo.
— Mesmo sem olhar, eu já sei que Jeongwoo não é meu irmão de verdade. Eu o peguei no orfanato.
Yeonwoo continuou calmamente.
— Estávamos juntos no dia em que o portal se abriu.
Seojoon só conseguia abrir e fechar a boca em descrença.
Então, Cha Yeonwoo acolheu um bebê que estava com ele no dia do acidente, criando-o como um irmão e arcando com todas as contas médicas.
Ele não era um adulto rico; era tão jovem que mal conseguia cuidar de si mesmo.
“Mas como você conseguiu todo esse tempo…?”
A pergunta quase saiu de seus lábios, mas desapareceu. Sem entender completamente as intenções de Yeonwoo em cuidar de Jeongwoo, ele não conseguiu perguntar.
No entanto, Yeonwoo respondeu por conta própria.
— Meu pai incluiu Jeongwoo no registro da nossa família. Havia ajuda financeira disponível para as vítimas do incidente no portal, e crianças menores de 15 anos receberam o dobro do apoio.
— …
— Desculpe. Eu deveria ter contado antes, mas fiquei preocupado que, se eu admitisse que Jeongwoo não era meu irmão de verdade, ele perderia a oportunidade de se tratar no laboratório.
É esse mesmo o problema? Não revelar antes?
Seojoon achava que a situação de Yeonwoo não poderia ser pior. Quanto mais aprendia, mais percebia que…
— …Poderia ter havido outra maneira, mais tarde.
Suas palavras saíram em choque, embora ele soubesse que não estavam corretas. Talvez não houvesse outra maneira a não ser ignorar a situação.
Jeongwoo, sofrendo de uma doença rara, não teria encontrado um lar, e o orfanato também não poderia acolhê-lo.
Mesmo assim, deveria haver ajuda disponível para Yeonwoo. Os benefícios do governo deveriam ter sido acessíveis de várias maneiras.
Mas era provável que o pai de Yeonwoo tivesse bloqueado esse caminho.
— Jeongwoo só tem a mim… Ninguém mais pode cuidar dele como eu. Se isso se tornar um problema para o tratamento dele…
— Não, Yeonwoo. Isso não importa.
Seojoon interrompeu, levantando-se um pouco.
— Jeongwoo continuará recebendo tratamento no centro. Não se preocupe com isso.
— Obrigado.
Yeonwoo disse suavemente, com os olhos baixos de alívio. Seojoon o observava com uma sensação de impotência. Ele não conseguia deixar de se perguntar se Yeonwoo esta com problemas, por que simplesmente não desistiu e colocou Jeongwoo em outro orfanato. Mas tais perguntas só anulariam a perseverança dele até então.
O que ele poderia dizer nessa situação? Conselhos ou conforto desajeitado seriam inúteis.
— …Seu travesseiro está desconfortável, Yeonwoo?
Seojoon levantou o braço levemente, observando a expressão confusa de Yeonwoo.
— Venha aqui. Meu braço vai ser melhor que uma peça de roupa.
Depois de um momento, Yeonwoo se aproximou cautelosamente, apoiando a cabeça no braço dele. Seojoon olhou para ele.
— Como está? Bem melhor, né?
— …Sim.
Yeonwoo respondeu e passou o braço em volta da cintura de Seojoon. O quarto, que estava um pouco frio mesmo com o aquecedor ligado, rapidamente se aqueceu com o calor corporal compartilhado.
— …Não há ninguém tão gentil quanto você, Yeonwoo.
— Eu sou gentil?
Yeonwoo olhou para ele. Seojoon não conseguiu conter o riso.
— Você está perguntando porque não sabe? É como se você tivesse o hábito de questionar coisas que são óbvias, Yeonwoo.
Sua cabeça se aninhou no abraço de Seojoon. Através da fina camada da camiseta, ele sentiu o hálito quente se espalhando por seu peito. Enquanto acariciava distraidamente os cachos macios dele, Yeonwoo falou de repente:
— …Mas eu não sou assim.
— O que…?
Que contradição, como café gelado e quente.
— Sou fofo? Sou gentil? – foi seguido por esta terceira afirmação ultrajante de Cha Yeonwoo. Ele às vezes diz coisas tão estranhas que deixam Seojoon sem palavras.
— Se você disser coisas assim, não sobrará ninguém que possa ser chamado de gentil.
Yeonwoo riu das palavras de Seojoon.
— Mas é verdade. Na verdade, sou uma pessoa bem ruim.
Após uma breve pausa, ele continuou em voz mais baixa.
— …Quando você se machucou no incidente do Yeonseon MyPark Mall, Tenente.
— …
— Me arrependi de ter salvado Jang Hyunsoo e desejei tê-lo deixado morrer. O Capitão Jin ficou tão furioso que o espancou violentamente, e eu esperava que ele morresse por causa disso.
Ele está falando de quando perdeu a parte inferior do corpo para a granada de Jang Hyunsoo. Seojoon, que havia perdido a consciência por três dias devido à dor, não poderia ter esquecido.
— …Isso certamente é algo que uma pessoa má diria.
Seojoon respondeu incrédulo. Duvidava que alguém não tivesse culpado Jang Hyunsoo naquele dia. Até mesmo desejar sua morte era uma reação compreensível.
— Às vezes. – Yeonwoo começou, confessando mais uma vez.
— …Gostaria que meu pai nunca mais voltasse.
A mão de Seojoon parou de acariciar o cabelo de Yeonwoo. Desta vez, não conseguiu responder com uma piada.
— Muitas vezes rezei para que ele desaparecesse deste mundo e nunca mais aparecesse na minha frente…
Depois de suportar por tanto tempo, as feridas que infeccionaram finalmente vieram à tona. Foi um fardo que Yeonwoo teve que carregar sozinho por um tempo inimaginável.
Simplesmente porque esse fardo lhe foi imposto pelo pai, Yeonwoo tornou-se um pecador sem culpa. Sua voz suave continuou a confessar seus pecados embaraçosos, como se temesse que alguém pudesse ouvir.
— …Eu não sou realmente esse tipo de pessoa.
Mesmo que nada disso fosse vergonhoso ou pecaminoso.
— As pessoas podem pensar diferente por fora, mas por dentro… por dentro, tenho pensamentos que outros jamais poderiam imaginar.
Seojoon olhou silenciosamente para os olhos de Yeonwoo que o observavam. Ele estendeu a mão cuidadosamente e tocou a bochecha de Seojoon.
— …Com você, Tenente.
Seojoon observou o rosto de Yeonwoo se aproximar, seus olhos azuis claros se fechando com força.
Lábios quentes se encontraram, e uma respiração trêmula roçou a bochecha de Seojoon. Eles ficaram paralisados por alguns segundos, tensos demais para se mexer.
— …É nisso que penso todos os dias.
As palavras suaves escaparam por entre seus lábios entreabertos.
— …Todos os dias.
O tempo todo.
A cabeça de Yeonwoo se enterrou no pescoço e no peito de Seojoon. As batidas do coração entre seus corpos ecoavam. Até mesmo o leve toque dos lábios fazia seus corações dispararem tanto que eles sentiam que iam explodir.
O beijo impulsivo de Cha Yeonwoo.
Seojoon apertou ainda mais a cintura de Yeonwoo. Com o rosto enterrado no peito dele, Yeonwoo respirava fundo. Parecia se preparar para uma bronca, tremendo como se estivesse esperando uma repreensão.
Seojoon segurou a bochecha de Yeonwoo, erguendo seu rosto. Os olhos bem fechados dele tremeram.
Passando o polegar sobre o lábio inferior de Yeonwoo, Seojoon se inclinou e sussurrou.
— Eu queria que você fosse uma pessoa realmente má, Yeonwoo.
Seus lábios se encontraram novamente, e a respiração entre eles desapareceu.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna