Beijo do inferno - Capítulo 53
Yohan, imerso em água morna, gemeu de satisfação. Sentindo que estava resfriando, decidiu tomar um banho de banheira depois de muito tempo. Enquanto mergulhava na água quente e borbulhante, os músculos de todo o seu corpo relaxaram agradavelmente.
Às vezes, ele não conseguia sentir nada como se algo estivesse errado emocionalmente, mas havia momentos em que algo trivial o fazia se sentir melhor. Naquele momento, Yohan se sentiu renovado, como se tivesse confirmado que seu circuito emocional estava funcionando corretamente.
Quando Yohan, que tinha passado muito tempo no banheiro relaxando, saiu, notou que seu celular estava piscando sobre a mesa do sofá na sala, onde a escuridão pairava. Afastou-se balançando a cabeça com rudeza. Havia uma mensagem flutuando na tela.
«Você já está dormindo?»
Era Valentine. Yohan colocou uma toalha em volta do pescoço e digitou no teclado.
—Ainda não.
«Quando você vai dormir?»
—Por que você está me perguntando isso?
«Eu estava me perguntando se poderia subir um pouco se você não estivesse dormindo.»
—…
Tuk, Tuk.
Gotas de água caíram de sua cabeça e molharam seus ombros. Enquanto secava sua testa úmida, Yohan enviou uma breve resposta.
—Sim.
Pouco depois de enviar essa resposta, Valentine apareceu. Vestido com malhas finas e calças confortáveis, ele parou na porta com uma garrafa de vinho. Yohan fez uma pausa, olhou para a garrafa e depois olhou novamente para o rosto de Valentine. Ao seu olhar questionador, Valentine sorriu.
—É sexta à noite. Acho que tudo vai ficar bem.
—Você é um paciente. Pode beber álcool?
—Uma bebida é aceitável.
— Quem disse isso?
—O médico. Se não acredita em mim, gostaria de falar com ele?
—…
—Na verdade, só vou tomar uma taça. Você pode beber o resto. Sabe que este é muito bom?
Valentine, repetindo-se, agitou levemente a garrafa que tinha na mão. Era a primeira vez que Yohan via aquele rótulo, mas pelo ano de produção, parecia ser um vinho bastante caro. Yohan, hesitando por um momento, finalmente se afastou abrindo caminho. Valentine, que passou por ele, tomou a dianteira e atravessou o corredor.
A sala de estar estava completamente escura, e pelas amplas janelas filtravam-se luzes bonitas, mas artificiais. Enquanto olhava ao redor da escura sala de estar, Valentine disse:
—Nem sequer acendeu as luzes, não é?
—Acabei de tomar banho. De qualquer forma, estava prestes a dormir.
—Bem, não importa se está escuro. Vou procurar os copos, então sente-se.
Valentine sentou casualmente Yohan no sofá, como se fosse sua própria casa. Ao ver sua figura desaparecer na cozinha, Yohan pensou em se deixar mimar pelo paciente por um tempo e logo se acomodou confortavelmente. Valentine se aproximou com dois copos e um abridor na mão.
— Aqui está.
Valentine habilmente tirou a rolha e despejou o vinho no copo. O líquido vermelho balançou suavemente no copo redondo várias vezes. Yohan levou o copo que ele lhe entregara aos lábios em silêncio.
— Gostou?
Yohan não sabia muito sobre vinho, mas sabia que o vinho que estava bebendo naquele momento era excelente. Quando assentiu, Valentine curvou os lábios como se estivesse satisfeito. Eles se sentaram no macio sofá e beberam o vinho em silêncio. Não havia necessidade de petiscos ou de iniciar conversas especiais.
Enquanto estavam imersos em um confortável silêncio, seus pensamentos se dispersaram em um instante.
—Gostaria de ouvir música? —perguntou Valentine, que mexia em seu celular e apoiava a cabeça no ombro de Yohan.
Quando Yohan assentiu, uma música sensual começou a fluir pelo alto-falante. Escuridão, música e álcool. Não importava o quão entediante pudesse parecer, era um ambiente perfeito para se envolver no clima.
O mesmo aconteceu com Yohan, que se deixou envolver pela atmosfera. O ritmo com que esvaziavam os copos era mais rápido do que o habitual. O fato de estar fazendo isso logo após um banho quente e o dia seguinte ser feriado o fez relaxar ainda mais. A embriaguez aumentou rapidamente sem nenhuma resistência. Com uma leve sensação de tontura, inclinou a cabeça e a apoiou no sofá. Uma luminária escultural pendurada no alto teto brilhava pelo reflexo das luzes da cidade. Enquanto continuava olhando para ela, sentia que o teto estava se inclinando. Foi quando, sem perceber, Yohan viu uma mão se estendendo de cima.
—Você está bêbado, Yohan?
Uma grande mão estendeu-se de um lado, tirou o copo de sua mão e então bloqueou sua visão. A grande e fria mão refrescou agradavelmente a área ao redor dos olhos de Yohan. Ele piscou lentamente. Ao ficar parado, a mão sobre seus olhos se moveu ao longo de seu nariz como se estivesse hesitante.
Foi um toque tão leve como uma pluma. O dedo que deslizou até a ponta de seu nariz tocou seus lábios.
—Você quer ir para o quarto descansar?
—… não, ainda não.
Com uma resposta lenta, Yohan segurou o pulso de Valentine e afastou sua mão. Yohan, com a cabeça inclinada de lado, olhou para Valentine. Seus olhos se encontraram na escuridão. Depois de olhar para Valentine por um momento, ele voltou seu olhar para o teto. E nessa posição, murmurou baixinho:
—Valentine, você disse que pensaria lentamente no que queria fazer.
—Sim, foi o que eu disse.
—Eu também tenho pensado sobre isso. Eu…
Yohan levantou um pouco seu torso magro, então, ele balançou a cabeça e respirou fundo. Valentine era a única pessoa com quem ele poderia compartilhar o que havia estado pensando incessantemente nos últimos dias. Ele ainda sentia uma leve rejeição a esse fato, mas era algo com o qual ele teria que se acostumar no futuro para sustentar a coexistência pacífica.
—Estou pensando em ir para a universidade.
Diante da confissão de Yohan, Valentine fez uma expressão indecifrável. Seus olhos picaram a bochecha dele, mas Yohan se afastou deles e continuou:
—Admito que minha vida é muito limitada como está. Como sabem, sempre quis melhorar os pontos fracos do sistema social e vou tentar fazer o que sempre sonhei. Para conseguir isso, preciso me apoiar na minha formação acadêmica, então vou me preparar a partir de agora para ver se funciona de alguma forma. Então, Valentine… você também precisa descobrir o que quer fazer.
Yohan, expressando sua determinação em um tom lento e sem pressa, olhou para Valentine com um olhar claro. Em seguida, continuou com um pouco de hesitação, como se estivesse duvidando se era apropriado adicionar essas palavras.
—Então… ao invés de apenas permanecermos juntos sem saber o que fazer como agora, talvez nosso relacionamento se torne um pouco mais estável.
Diante das palavras de Yohan, a expressão de Valentine mudou estranhamente. Foi porque ele percebeu que no futuro de Yohan, ele tinha seu lugar. Yohan estava falando sobre a única coisa que Valentine sempre quis desde o início, e o fato de ele comunicar minuciosamente seus desejos fazia Valentine sentir que finalmente havia percorrido um longo caminho.
— Sim… está bem.
Mas Valentine não disse nada sobre estar grato. Apenas assentiu brevemente com a cabeça. Para Yohan, essa resposta seca foi suficiente. Então, ele sorriu mais uma vez quando estendeu a mão novamente, oferecendo-lhe outro copo de vinho. A mão estendida agarrou seu pulso. Seus olhos se encontraram na escuridão.
—Yohan, sei que pode ser cansativo ouvir isso, mas meus sentimentos sempre permaneceram os mesmos. Enquanto estiver ao seu lado, estou disposto a lidar com qualquer coisa para manter essa rotina em que você sorri.
Os olhos de Yohan se estreitaram diante de uma confissão inesperadamente pesada. Mas quase imediatamente, um sorriso surgiu em seus lábios finos.
—Bem… Espero que não arrisquemos mais nada. Não tenho forças para lidar mais com coisas assim.
Yohan recostou-se no sofá. Então, ele soltou um longo suspiro com cheiro de vinho.
—Ainda não entendo completamente. Como devemos nos acostumar um ao outro? Será que podemos nos acostumar eventualmente a viver uma vida cotidiana pacífica?
Sua pergunta não teve resposta, mas a mão envolta em seu pulso o apertou com mais força. ‘Se finjo que nada aconteceu, o passado será apagado ou a fuligem que resta no fundo do meu coração será limpa apenas quando eu enfrentá-lo e reconhecê-lo?’.
Yohan de repente sentiu curiosidade. Eles haviam passado muito tempo imersos em suas próprias perspectivas e aceitando as mesmas experiências de maneiras diferentes.
‘Como Valentine lembra do incidente que deixou uma cicatriz terrível no coração de Yohan?’ A curiosidade, que normalmente teria permanecido enterrada no fundo de seu coração, aproveitou-se de sua embriaguez e fluiu livremente.
—Valentine, lembra quando passei pelo meu primeiro ciclo de calor?
O conforto que os envolvia desapareceu instantaneamente. Através do contato visual, Yohan sentiu a tensão surgindo, mas não parou.
—Eu resisti, mas você acabou me abraçando. E disse que me amava, que me desejava. Então… você alguma vez me deu uma escolha?
—….
— Na verdade, eu sei. Meu ressentimento em relação a você é complexo, envolvendo várias causas além de você. Naquele momento você não pensou que eu poderia ter me ressentido com você por tanto tempo?
Ele disse tantas palavras que era impossível determinar se eram um aviso ou uma pergunta. Valentine, que estava ouvindo em silêncio, se levantou de seu assento e se sentou na mesa do sofá em frente a Yohan. Seus olhos estavam entrelaçados em uma altura similar. Depois de um curto silêncio, Valentine estendeu a mão e cobriu a bochecha de Yohan. Com os olhos de Yohan fixos nele, Valentine respondeu com firmeza.
—Não. Eu nunca fiz isso.
—….
— Me aproveitei do fato de você estar em um estado em que não podia resistir e indulgi em meus desejos sem hesitação. Eu sou o agressor e você é a vítima. Mesmo agora… estou monopolizando sua presença por meu próprio egoísmo.
Ele usou um dedo limpo para tocar a área dos seus olhos. Os ombros de Yohan tremeram sob a mão que o tocava suavemente, como se tentasse secar suas lágrimas. Enquanto observava de perto seu rosto sonolento devido à embriaguez, Valentine falou baixinho.
—Mesmo agora, eu ainda me arrependo.
—….
—Lamento não ter te confortado quando você se manifestou como Ômega… Deveria ter te tranquilizado, acalmado e feito com que o seu primeiro ciclo de calor, fosse menos traumático e mais suave.
Yohan olhou para Valentine como se tivesse esquecido até mesmo de respirar. Valentine franziu a testa dolorosamente, mas não parou de falar.
—Se eu tivesse te dito que você era ômega e não beta, talvez não tivesse deixado uma cicatriz tão profunda em seu coração, e você não teria que viver tanto tempo como alguém que não é… e não teria sido vítima do meu egoísmo ao não te deixar ir. Talvez você ainda tivesse uma confiança inabalável em mim.
Enquanto Valentine continuava falando, Yohan parecia devastado. Valentine manteve uma calma superficial, mas havia uma tempestade em seus belos olhos.
—…Eu fiz inúmeras suposições desse tipo, mas decidi parar de pensar nisso. O arrependimento e a angústia pelo passado irreversível são uma carga que devo enfrentar pelo resto da minha vida.
—Valentine…
—Então você não vai me perdoar facilmente, Yohan. Não vou pedir que acredite em mim. Em vez disso, continuarei tentando.
Sua sinceridade, que sempre parecia tão distante, agora era tão palpável que Yohan queria se afastar dele. Seu coração, que estava imerso em uma quietude sonolenta, começou a bater irregularmente. As cores das emoções misturadas dentro dele eram diversas. O ressentimento e o pesar, as expectativas e a desesperança, e muitas outras emoções ainda não resolvidas…
Yohan empurrou o peito de Valentine com um suspiro curto.
—… Não seja tão subserviente agora. Não é muito confiável.
Felizmente, a voz que fluía através de seus lábios era a mesma de sempre. Valentine assentiu lentamente diante de sua resposta fria.
—Sim.
Depois disso, um silêncio desconfortável os envolveu. Devido à bagunça de seus pensamentos, Yohan bebeu de forma muito diferente do habitual e a garrafa de vinho vazia rolou pelo tapete. Sua cabeça estava girando e sua mente queimava tão leve quanto uma vela com o pavio queimado. Yohan fechou os olhos sem resistir ao influxo do sono.
—Yohan.
—…
—Yohan, acorde.
Yohan abriu os olhos quando sentiu alguém sacudi-lo. Sentiu a mudança no fluxo de ar através de sua pele e o frio o atingiu devido à temperatura ambiente incomumente baixa.
—Quanto tempo eu dormi…?
—Como se tivesse lido a mente de Yohan, Valentine, que o olhava de cima, tocou sua bochecha.
—Já se passou uma hora.
—… O quê?
Como o tempo passou tão rápido? Agora que penso nisso, minha memória se desconectou em algum momento. Yohan franziu a testa com a intoxicação que fazia a parte superior do seu corpo se sentir desconfortável.
—Você não está se sentindo bem?
Valentine acariciou os olhos de Yohan com o dedo. Enquanto sua temperatura corporal caía, o calor se espalhava por todo o rosto. A temperatura que sentiu através da grande palma era reconfortante. Yohan fechou os olhos em silêncio, e Valentine tocou sua testa, bochecha e queixo. Uma voz tão suave quanto a mão que o tocava entrou em seus ouvidos.
— É melhor ir para o quarto e deitar-se. Eu gostaria de te carregar, mas como pode ver, tenho um buraco no estômago.
—…Não preciso desse tipo de favor.
Enquanto Yohan ria, Valentine estendeu a mão e o ajudou a se levantar. Tropeçando devido à força que puxou suas costas, Yohan entrou no banheiro, escovou os dentes e lavou o rosto com os olhos entreabertos. Valentine, que estava em pé atrás dele, sorriu levemente enquanto Yohan limpava a água que escorria pelo queixo.
—Você ainda não corrigiu isso.
—O quê?
—Você ainda não se seca corretamente depois de lavar.
Os olhos de Valentine se curvaram enquanto ele secava o queixo úmido de Yohan com suas próprias mãos.
—Se eu disser que esse hábito seu é muito fofo, você ficaria bravo?
—Sim. Se você sabe, não faça.
Com sua risada às costas, Yohan dirigiu seus passos vacilantes para o quarto. Então, ele se jogou na cama sem demora e se afundou no cobertor. A roupa de cama que o cobria era confortável e aconchegante. Assumindo uma posição confortável no cobertor, Yohan levantou a cabeça. Quando seus olhares se encontraram, Valentine, que estava parado à distância, inclinou a cabeça para o lado.
Yohan o olhou com os olhos bem abertos. Nos últimos dias, Valentine nunca havia ficado com ele até tarde da noite. Quando era hora de dormir, ele saía sem demora. E mais uma vez, Valentine deu um passo para trás e acenou suavemente com a mão.
—Boa noite, Yohan.
Era a atitude que esperava, e estava bem deixá-lo ir como de costume. Mas, por alguma razão, agora ele não queria fazer isso. O fato de ainda estar um pouco embriagado, a conversa anterior que agitara sua mente e o toque cuidadoso de Valentine fizeram com que Yohan agisse de forma diferente. Depois de hesitar por um momento, ele finalmente decidiu abrir a boca.
—Você vai embora?
—É o correto.
—Por quê?
Valentine parou diante de uma pergunta com intenções desconhecidas. Seu olhar, enquanto pensava no que Yohan estava planejando, brilhava na escuridão. Depois de um breve silêncio, ele decidiu dar uma resposta neutra e geral.
—Porque essa é sua casa.
—Essa é realmente a única razão?
—Que outra razão poderia haver?
—Não finja que não sabe.
Yohan não deu a Valentine a chance de escapar. Depois de interromper seu discurso, ele levantou a ponta do cobertor. Mas Valentine ficou parado e o observou com um olhar claro. O fluxo de ar diminuiu e a paz entre eles se dissipou. Em seu lugar, uma tensão desconhecida se instalou ligeiramente entre eles.
Valentine, que estava em silêncio com um rosto que não podia ser lido, enrolou levemente um canto de sua boca.
—Isso é um teste de tolerância?
Diante da pergunta atenta dele, Yohan sorriu.
—Lamento desapontar você, mas… não é isso que significa.
—…
—Se você se sentir desconfortável, pode ir embora.
Ao ouvir essas palavras, Valentine se aproximou lentamente. Quando chegou à frente da cama, ele levantou os joelhos sobre o colchão macio. À medida que seu corpo grande se aproximava, teve a ilusão de que o amplo espaço ficava pequeno de repente. Yohan viu Valentine se aproximar da cama e deitar ao seu lado. O som de seu corpo roçando contra o lençol fez seus ouvidos ficarem sensíveis e sua pele se arrepiar sem motivo.
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Continua…