Capítulo 27
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- Capítulo 27 - Lâmpada do Coração
Pequim, do lado de fora do Beco Lingjing.
Chen Zhen carregava uma bolsa da LV*; ele a entregou a Chi Xiaoduo e disse: “Segure isso para mim um pouco.”
(n/t: *Louis Vuitton)
Chi Xiaoduo pensou: Você também tem muito dinheiro; por que, então, Xiang Cheng é tão pobre?
“Percebi que você e Qiqi são bem ricos, apesar de serem exorcistas”, comentou Chi Xiaoduo.
“Não, todos os exorcistas são pobres”, respondeu Chen Zhen. Parecendo adivinhar o que se passava na cabeça de Chi Xiaoduo, ele explicou: “Embora os exorcistas possuam habilidades poderosas, não temos permissão para usá-las em pessoas comuns. Se alguém for pego, as consequências são gravíssimas.”
“Então, por exemplo, se eu quisesse ganhar um dinheiro extra, como faria isso?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Na maioria das vezes, não é permitido fazer bicos por conta própria”, disse Chen Zhen. “É preciso informar a organização, e o governo fornece alguns subsídios. No momento, estamos discutindo internamente como reformar o sistema, modernizar a atuação dos exorcistas e cobrar taxas limitadas por serviços de feng shui e adivinhação. Mas você sabe como é: existem superstições primitivas e charlatães do submundo, o que torna a situação confusa e difícil de gerenciar.”
Chi Xiaoduo disse: “Eu achava que esse trabalho fosse muito lucrativo.”
“O lucro não vem em forma de dinheiro”, disse Chen Zhen. “Trata-se de acumular bênçãos para si mesmo, para seus parentes e para as gerações futuras. Ganhar dinheiro hoje em dia é fácil; qualquer um consegue ganhar dinheiro facilmente, mas acumular bênçãos é difícil. Você não acha?”
“Não é fácil ganhar dinheiro”, disse Chi Xiaoduo. “Quanto a coisas como bênçãos e tal… na verdade, acho que isso é mais fácil; basta fazer uma boa ação por dia, né?”
“Se todo mundo pensasse como você”, disse Chen Zhen enquanto ligava o jipe, “não haveria tantos yaos e demônios no mundo, certo? Desculpe, estou no comando há muito tempo e gosto de usar perguntas retóricas… pode me ignorar.”
Chi Xiaoduo começou a rir.
“A organização não tem dinheiro”, disse Chen Zhen. “É assim mesmo para funcionários públicos, embora esse tipo de trabalho tenha um charme único. No fim das contas, qualquer ofício é apenas um meio de ganhar a vida.”
“Verdade”, disse Chi Xiaoduo. “Na verdade, pensando bem, eu toparia fazer isso mesmo sem receber. Posso viajar pelo mundo, mas também dominar certas habilidades e salvar o mundo.”
“‘Assim que ela viu Yang Guo¹, cometeu um erro que marcaria o resto de sua vida’”, suspirou Chen Zhen, reduzindo a velocidade do jipe. “Daqui a pouco vou precisar que você me faça um favor. Quando eu perguntar o que você está vendo, é só me dizer.”
“Vocês não têm feitiços para enxergar yaoguai?” Chi Xiaoduo perguntou, curioso.
“Se tivéssemos essa capacidade”, disse Chen Zhen, rindo, “não haveria mais necessidade de espelhos reveladores de yao. O processo para obter autorização e usar um espelho desses, mesmo que apenas uma vez, é extremamente trabalhoso. Na maior parte do tempo, só podemos contar com nossas próprias habilidades para detectá-los. Localizar yaos e demônios é a parte mais importante, mas alguns yaos não são maus. Nem todos serão exterminados.”
Chi Xiaoduo perguntou: “Xiang Cheng está em perigo?”
Chen Zhen hesitou por um momento antes de responder: “Ele não deveria correr nenhum perigo grave. Sua competência profissional é suficiente para se destacar em relação à maioria de seus colegas e, a julgar pelo seu histórico de desempenho, ele apenas tende, às vezes, a subestimar o inimigo.”
Chen Zhen encostou o carro em uma via larga e pegou o rádio comunicador do painel.
“Preciso de reforços do lado de fora do Portão Xuanwu”, disse Chen Zhen.
As luzes da rua, em ambos os lados da via, apagaram-se simultaneamente. Chen Zhen desligou o motor, e os dois permaneceram em silêncio dentro do carro; Chi Xiaoduo sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao olhar pela janela.
“Que lugar é este?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Caishikou²”, disse Chen Zhen em voz baixa. “O lugar na capital onde a concentração de ‘espíritos’ é mais intensa.”
Uma rajada de vento passou, e Chi Xiaoduo sentiu que toda a situação era um tanto irreal. Ele viu vagamente uma enorme sombra negra, acompanhada por uma lufada de vento, passar lentamente pela estrada vinda de Caishikou.
Parecia uma pipa gigantesca — ou talvez um gigante.
Chi Xiaoduo descreveu a coisa: “Era um sujeito gordo que passou voando.”
Chen Zhen disse: “Espere mais um pouco.”
O gigante flutuou de volta. Desta vez, Chi Xiaoduo o viu claramente: tinha formato esférico, era translúcido e preto, com pés enormes, rastejando do lado de fora do Portão Xuanwu.
“Aquela coisa gorda é bidimensional ou tridimensional? Quantas patas ela tem?” Chen Zhen perguntou. “Tem mãos ou asas?”
“É tridimensional; quanto às asas… não vi nenhuma”, disse Chi Xiaoduo, hesitante. “Não tem mãos e possui quatro patas.”
“Qual é a aparência dela?” Chen Zhen disse. “Faça um desenho.”
O monstro enorme havia parado de se mover e estava ali, parado no meio da estrada. Enquanto desenhava, Chi Xiaoduo disse: “Parece um cachorro gordo sem cabeça, com dez metros de altura e completamente transparente.”
Chen Zhen franziu levemente a testa e, de repente, Chi Xiaoduo falou: “Ué? Tem alguém vindo para cá.”
“Como é essa pessoa?” Chen Zhen perguntou.
“É um idoso apoiado em uma bengala, segurando um leque de folhas de taboa…” disse Chi Xiaoduo.
“Este eu estou vendo”, disse Chen Zhen. “O que ele está fazendo?”
Para Chen Zhen, parecia que um velho havia surgido à beira da estrada e estava olhando para o céu; mas, para Chi Xiaoduo, o velho estava encarando aquele monstro negro, enorme e invisível.
“Ele… ele… ele… ele está sugando aquele gorducho!” Chi Xiaoduo estava apavorado.
“Shh.” Chen Zhen fez um gesto e perguntou: “Como ele está sugando isso?”
“Ele está sugando para dentro!” Chi Xiaoduo gritou. “Sugando para dentro, AHHHHH ——”
“Por onde ele está sugando?” Chen Zhen perguntou.
“Pela boca!” Chi Xiaoduo respondeu, encolhendo as pernas e segurando o xixi. “O que é isso? É tão aterrorizante…”
“Shh!” Chen Zhen disse. “Ele já terminou de sugar?”
Chi Xiaoduo: “……”
Do ponto de vista de Chi Xiaoduo, o velho absorveu lentamente todo o enorme monstro negro para dentro de seu corpo e, em seguida, abanou-se calmamente com seu leque de folhas de taboa enquanto caminhava pela Rua Caishikou.
Chen Zhen deu a partida no carro e dirigiu atrás do velho, mantendo um ritmo nem lento nem rápido.
“Já o alcançamos?” Chen Zhen perguntou.
“Você não consegue vê-lo?” Chi Xiaoduo perguntou.
Chen Zhen tocou duas vezes em seus óculos Google Glass e respondeu: “De repente, não consigo mais vê-lo. Ele deve ter ficado invisível usando poder yao; prepare-se para lhe fazer algumas perguntas.”
Chi Xiaoduo: “Eu… eu… como é que eu falo com ele?!”
“Pergunte a ele onde está Xiang Cheng.” Chen Zhen virou a cabeça, viu que a calçada estava completamente deserta e perguntou: “Ele está do lado de dentro ou do lado de fora das grades?”
Chi Xiaoduo fez um gesto indicando que já estavam perto. Chi Xiaoduo disse: “Diminua um pouco a velocidade… Olá, vovô, olá!”
O idoso caminhava tranquilamente à frente.
“Olá!” Chi Xiaoduo debruçou-se na janela e estendeu a mão para acenar para ele.
“Não toque nele”, sussurrou Chen Zhen.
“O que foi?” O velhinho disse, sem se virar. “Jovem, eu te ouvi.”
O coração de Chi Xiaoduo disparou. Embora estivesse muito nervoso, ele sentia que o velho ainda parecia normal — ou, pelo menos, sua voz era normal. A cena que ele vira pouco antes parecia a de alguém praticando exercícios de respiração; portanto, ainda estava dentro dos limites do que ele conseguia suportar.
O velho continuou sem se virar; ele parou de caminhar e estendeu a mão.
Chi Xiaoduo pegou o celular, abriu uma foto de Xiang Cheng e esperou que o velho se virasse.
O velho não se virou ao dizer: “Não olhe para os vídeos; olhe para as fotos.”
“Ah, aqui estão algumas fotos”, disse Chi Xiaoduo.
“Não as que foram tiradas com o celular, mas sim fotos reveladas”, disse o velho.
“O quê?” Chi Xiaoduo disse, confuso. “Não tenho nenhuma foto revelada aqui…”
“O que estou dizendo é que você é quem precisa olhar para as fotos”, disse o velho. “Garoto, cuide do seu Dage e não deixe ele beber.”
Chi Xiaoduo: “……”
Havia um leve sorriso na voz do velho enquanto seus dedos ressequidos tocavam suavemente o celular de Chi Xiaoduo.
O velho disse: “O sujeito ao seu lado não é boa coisa. Ele é astuto demais; não ande com eles.”
A expressão de Chen Zhen vacilou, e o velho continuou: “Não custa nada te contar: siga direto passando pelo Portão Xuanwu e você encontrará uma Torre do Tambor³ logo na saída da Rua Yandai Xie⁴. A pessoa que você procura foi levada pelo Mestre Die⁵.”
“Levado para onde?” A voz de Chi Xiaoduo tremia.
“Vá agora mesmo, talvez ainda consiga encontrar”, disse o velho. “Ao amanhecer, pode ser que ninguém mais saiba onde ele está.”
“Obrigado”, disse Chi Xiaoduo com a voz trêmula. “Obrigado.”
O som da bengala ecoou enquanto o velho se afastava lentamente, sem olhar para trás nem uma vez sequer.
“A Torre do Tambor…” Chen Zhen acelerou o carro e perguntou: “Qual era o nome dele? Senhor Die?”
“Senhor Dié, Senhor Dié”, disse Chi Xiaoduo. “Segundo tom⁵; não tenho certeza de qual é o caractere. E quem era aquela pessoa agora?”
“Eu também não sei”, respondeu Chen Zhen. “Há muitos yao na capital, especialmente ultimamente.”
“Ele fez mal a alguém?” Chi Xiaoduo perguntou. “Acho que ele talvez não machuque as pessoas.”
Chen Zhen disse: “Imagino que ele tenha visto você como alguém igual a ele.”
O primeiro caractere que veio à mente de Chi Xiaoduo fora Die (耋), e não outro qualquer. Màodié, màodié⁷ — aquele velho o fez lembrar da expressão “viver até uma idade avançada antes de morrer”.
Chen Zhen deu uma volta de carro pela Rua Yandai Xie, passando sob a Torre do Tambor, e pediu a Chi Xiaoduo que saísse do veículo. Chi Xiaoduo estava um pouco receoso, mas, pelo que o velho havia dito, Xiang Cheng poderia ter sido sequestrado. Não adiantava ter medo agora; ele precisava reunir coragem para ir encontrá-lo.
Chen Zhen pulou a cerca de fora da Torre do Tambor, enquanto Chi Xiaoduo ainda tentava passar por cima de forma desajeitada. Chen Zhen disse: “Se acontecer alguma coisa, se esconda atrás de mim imediatamente.”
Chi Xiaoduo assentiu. Às duas da manhã, a Torre do Tambor estava completamente escura e silenciosa. Chen Zhen tirou uma lanterna pequena de sua bolsa da LV, ligou-a e deu uma iluminada ao redor.
Chi Xiaoduo parou diante de um tambor enorme, abaixou-se lentamente e pegou uma pena. Ele trocou um olhar com Chen Zhen, e ambos permaneceram em silêncio na escuridão. Chen Zhen ergueu a mão para tocar a superfície lisa do tambor.
“Xiang Cheng, você está aí?” Chi Xiaoduo sussurrou.
Chen Zhen fez um gesto de “shh”, sinalizando para que Chi Xiaoduo ficasse atrás dele e estendeu os dedos para dar um leve toque na superfície do tambor, que emitiu um som surdo.
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Ao mesmo tempo, Xiang Cheng, que estava com as costas apoiadas na parede, abriu os olhos de repente.
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“Geralmente há um compartimento oculto no meio da Torre do Tambor”, disse Chi Xiaoduo. “Será que ele está preso lá dentro?”
Chen Zhen circulou o local, enquanto o vison descia e farejava tudo ao redor. Chen Zhen perguntou: “Como se entra nesse compartimento oculto?”
“Me dá a lanterna”, disse Chi Xiaoduo.
Carregando a lanterna, Chi Xiaoduo desceu primeiro para o andar de baixo, examinou o ambiente, encontrou uma porta pequena e tentou abri-la à força, empurrando-a com o ombro. Chen Zhen fez um sinal para que ele se afastasse; o vison encolheu-se um pouco antes de passar pela fresta entre a porta e o batente. Pouco depois, ouviu-se o som da tranca sendo destravada. A porta pequena se abriu, revelando uma escada em seu interior.
Enquanto subiam as escadas, chegaram a um ponto a meio caminho entre o primeiro e o segundo andar, onde uma viga atravessava o espaço na diagonal. Chi Xiaoduo disse: “Achei.”
Chi Xiaoduo subiu pela viga. Dessa forma, eles deixaram o primeiro andar, mas não chegaram ao andar superior; em vez disso, encontravam-se agora no espaço oculto entre os dois andares. Era um local onde ninguém jamais havia entrado: a camada estrutural secreta da Torre do Tambor.
Esse andar era todo feito de vigas de madeira cruzando em todas as direções. Ao olhar para baixo, via-se o teto do andar inferior a apenas dois metros de distância.
Chen Zhen movimentou a lanterna para iluminar ao redor.
No andar oculto havia apenas um tambor velho e surrado. O vison foi rapidamente até lá, farejou a frente do tambor e esgueirou-se para dentro. O coração de Chi Xiaoduo gelou, mas o vison logo saiu pelo outro lado.
“Xiang Cheng?” Chi Xiaoduo perguntou.
Não houve resposta. Chi Xiaoduo pegou o celular e conferiu a hora: eram quatro da manhã.
“Chen Zhen?”
“Hmm.”
Chen Zhen ergueu o olhar para um talismã branco fixado em um pilar; tirou um isqueiro e uma lamparina da bolsa e acendeu a lamparina.
As pupilas de Chi Xiaoduo se contraíram e ele estremeceu de medo; Chen Zhen imediatamente o agarrou e o puxou para trás de si.
À medida que a luz amarela e brilhante da lamparina iluminava o ambiente, a disposição da câmara oculta revelava-se por completo: no alto, oito vigas que se cruzavam estavam silenciosamente cobertas por talismãs de papel pendentes, enquanto, sob os pés, oito vigas dispostas em um padrão formando o desenho do caractere chinês “井” — estavam repletas de velas de diferentes tamanhos.
Na extremidade da viga estava aquele tambor abandonado.
Diante do tambor havia um suporte de madeira, e sobre o suporte, numa postura estranha, estava apoiado um esqueleto de ossos brancos.
O coração de Chi Xiaoduo quase parou de susto; ele se apoiou nas costas de Chen Zhen, ofegante. Chen Zhen apenas lançou um olhar para aquilo antes de apagar a lanterna esférica de vidro que segurava, mergulhando a câmara oculta novamente na escuridão.
Chi Xiaoduo sentiu arrepios por todo o corpo.
Chen Zhen disse: “Não tenha medo.”
Chen Zhen passou a mão lentamente à sua frente e disse: “Esta é uma matriz de concentração de energia espiritual usada por yaoguai, e os ossos são apenas ferramentas para a matriz. Eles não ganharão vida; não se preocupe.”
Chi Xiaoduo se acalmou um pouco. Chen Zhen continuou: “O medo que as pessoas sentem do desconhecido surge justamente por não compreenderem aquilo. Uma vez que compreendem seu princípio e sua essência, o medo desaparece.”
“S… Sim.” Chi Xiaoduo sentiu que a explicação realmente amenizava seu medo, mas ele ainda estava aterrorizado a ponto de soltar gemidos de pavor e quase fazer xixi nas calças.
Chen Zhen examinou as vigas de madeira dispostas no formato do caractere chinês “井” sob seus pés e perguntou: “O que você vê?”
Chi Xiaoduo: “Eu… eu…”
“Olhe nos meus olhos”, disse Chen Zhen. “Acalme-se.”
Chen Zhen guardou a lanterna e colocou as mãos em ambos os lados da cabeça de Chi Xiaoduo, forçando-o a encontrar seu olhar. Em seguida, recitou rapidamente um encantamento, e os batimentos cardíacos de Chi Xiaoduo se acalmaram instantaneamente.
Ele viu um pequeno ponto de luz verde nas pupilas de Chen Zhen. Aquele ponto de luz verde era um reflexo — um reflexo que vinha de seu próprio olho esquerdo.
Tudo ao redor estava escuro e silencioso, e a luz na pupila de Chi Xiaoduo sobressaía de forma marcante. A respiração dele e a de Chen Zhen se misturavam enquanto ambos sustentavam o olhar um do outro. A luz verde — semelhante a um peixe nadando — girava lentamente em um padrão de Taiji nas profundezas de sua pupila.
Chen Zhen cobriu o olho direito de Chi Xiaoduo com uma das mãos e fez com que ele se virasse e ficasse posicionado atrás dele.
“Diga-me”, disse Chen Zhen, “o que você vê?”
Chen Zhen abraçou Chi Xiaoduo por trás e, com uma das mãos, traçou um círculo mágico. A visão de Chi Xiaoduo tornou-se subitamente nítida, e aquela sensação de alternância entre clareza e indefinição desapareceu. Em vez disso, o mundo à sua frente começou a brilhar intensamente por toda parte, emitindo inúmeros raios de luz.
“O corpo do esqueleto está emitindo uma luz vermelha”, disse Chi Xiaoduo. “Luz, muita luz.”
“Há algo de incomum no tambor, na extremidade da viga?” Chen Zhen perguntou. “Rápido, procure a essência disso, minha força não vai durar muito.”
“O tambor… também está brilhando.” Chi Xiaoduo ficou surpreso ao perceber que tudo brilhava: os amuletos, a viga sob seus pés e toda a Torre do Tambor. Os feixes de luz pareciam serpentinas fluidas, chegando de todas as direções e fundindo-se no tambor. Apenas a luz vermelha vinda do esqueleto central flutuava em direção ao céu.
Chi Xiaoduo descreveu a cena, e Chen Zhen imediatamente o soltou, parecendo um tanto cansado.
“Chen Zhen?”
Chen Zhen fez um gesto com a mão, indicando que ele não deveria fazer mais perguntas. Então, levantou-se: a mão esquerda na posição de “dedo-espada”, a palma da mão direita estendida e a mão esquerda apoiada sobre a palma direita.
Um “DONG” estrondoso ecoou — e todos os tambores do terceiro andar da Torre de Tambor, todos os que davam para a rua, vibraram ao mesmo tempo!
O som era ensurdecedor e fazia Chi Xiaoduo sentir como se seus pulmões estivessem vibrando com aquela sonoridade. Exatamente no momento em que toda a Torre do Tambor ressoava sob os primeiros raios do sol da manhã, o tambor danificado na extremidade da viga, na galeria superior, começou subitamente a brilhar com uma luz intensa!
“Vamos!” Chen Zhen disse, e em seguida, puxando a mão de Chi Xiaoduo, avançou correndo.
Chi Xiaoduo soltou um grito e foi arrastado por Chen Zhen, saltando para dentro da luz intensa!
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Ao ouvir o som do tambor, Xiang Cheng virou a cabeça imediatamente; no entanto, fora apenas uma batida, e o mundo mergulhou no silêncio mais uma vez.
“O que aconteceu?” perguntou a voz de Chi Xiaoduo.. “Onde é este lugar?”
“Shh…” murmurou a voz de um homem.
“Xiaoduo?” Xiang Cheng perguntou.
Chi Xiaoduo permaneceu em silêncio enquanto corria em direção a Xiang Cheng, vindo do corredor escuro; incrédulo, Xiang Cheng o abraçou com força. Chi Xiaoduo envolveu o pescoço de Xiang Cheng com os braços, sem dizer nada, e apenas esfregou o rosto repetidamente contra o pescoço dele.
“Como exorcista”, disse Chen Zhen ao surgir da escuridão e acender a lanterna, “você não desconfiou que se tratava de uma barreira mágica criada por um Coração Demoníaco. Isso foi muita imprudência.”
Xiang Cheng estava tão emocionado que mal conseguia respirar. Ele segurou Chi Xiaoduo pelos ombros e o protegeu, colocando-o atrás de si, antes de franzir a testa e olhar para Chen Zhen.
Chen Zhen fez um gesto, como se estivesse saudando Xiang Cheng.
Xiang Cheng estreitou os olhos, manteve-se firme e juntou as palmas das mãos para retribuir a saudação de Chen Zhen.
“Por que você não avisou?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Meu celular ficou sem bateria”, disse Xiang Cheng, sentindo-se culpado. “Sinto muito; achei que voltaria logo.”
“O que você estava procurando?” Chen Zhen perguntou.
“Caçando um yao”, respondeu Xiang Cheng. “Quem é você?”
“O diretor do Departamento de Exorcismo do Beco Lingjing.”
“Chen Zhen?” Xiang Cheng perguntou.
“Qi Wei me pediu para vir te procurar”, disse Chen Zhen com frieza. “Não faço ideia de que bagunça vocês dois estão aprontando. Mas parece que o mais importante agora é dar um jeito de sair daqui, não é?”
“É uma técnica de parede”, respondeu Xiang Cheng; em seguida, segurou a mão de Chi Xiaoduo e disse a Chen Zhen: “O ciclo de yin e yang: ele não pode ser rompido até o momento em que o yin e o yang se cruzam. Xiaoduo, você se lembrou de tudo?”
Tendo finalmente encontrado Xiang Cheng e esgotado todas as suas forças no processo, Chi Xiaoduo perguntou: “Quanto mais você tem escondido de mim?”
A expressão de Xiang Cheng demonstrava grande constrangimento. Chi Xiaoduo reconsiderou; já que havia o encontrado, não havia necessidade de insistir mais no assunto — havia muito tempo pela frente, e as respostas para muitas coisas acabariam surgindo.
Chen Zhen acendeu sua lanterna e caminhou em direção à escuridão. Chi Xiaoduo quis chamá-lo, mas Chen Zhen desapareceu no fim do corredor. Xiang Cheng sinalizou para que Chi Xiaoduo não falasse e o ajudou a se sentar.
“Você já comeu?” Xiang Cheng perguntou. “Está com fome?”
“Eu comi um pouco, e você?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Tem água?” Xiang Cheng perguntou.
“Tenho.” Chi Xiaoduo remexeu a bolsa e encontrou uma garrafa de água mineral. Xiang Cheng bebeu tudo de um gole só, com a água escorrendo pelos cantos da boca. O vison de Chen Zhen se ergueu e ficou observando-os, imóvel.
“É um loop.” A voz de Chen Zhen veio de trás deles. Chi Xiaoduo olhou para trás e levou um susto. Obviamente, ele havia caminhado para frente, mas, no fim das contas, surgiu atrás deles.
“É uma passagem subaquática”, disse Chen Zhen. “Após ser distorcida por forças yao poderosas, o curso d’água se sobrepõe ao mundo dos sonhos.”
Xiang Cheng não respondeu; ele limpou o canto da boca com as costas da mão e envolveu Chi Xiaoduo nos braços, aconchegando-o contra o peito.
“Durma um pouco.”
Sentindo-se um pouco mais tranquilo, Chi Xiaoduo encostou-se no ombro nu e sujo de fuligem de Xiang Cheng e fechou os olhos, embora seu coração estivesse acelerado demais para que ele conseguisse pegar no sono.
“O que fazemos agora?” Chi Xiaoduo perguntou. “Podemos sair daqui?”
“Espere o momento certo”, respondeu Chen Zhen. “Assim que o sol nascer, o ciclo mudará. Se encontrarmos uma oportunidade, poderemos sair.”
Xiang Cheng não respondeu.
“Você é um exorcista?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Chen Zhen te contou tudo?” Xiang Cheng perguntou em voz baixa, em meio à escuridão.
Chi Xiaoduo murmurou um “hmm”. Xiang Cheng havia se preparado para uma enxurrada de perguntas, mas Chi Xiaoduo simplesmente balançou a cabeça e não perguntou nada. O importante era que ele havia sido encontrado; em comparação, o fato de Xiang Cheng poder ser um yaoguai já não importava mais.
Chi Xiaoduo levantou a cabeça para olhar Xiang Cheng e, em seguida, olhou de soslaio para Chen Zhen, que estava sentado não muito longe dali. Chen Zhen parecia não saber o motivo de Xiang Cheng estar naquele lugar, mas não insistiu por detalhes; enquanto isso, Xiang Cheng continuava imerso em pensamentos, lançando olhares inquietos e preocupados para Chi Xiaoduo de tempos em tempos.
Chi Xiaoduo pensou: Quando voltarmos, vou torturá-lo com perguntas. E murmurou um “hmm”.
“Ele estava quase chorando enquanto te procurava”, disse Chen Zhen. “Por sorte, ele tem olhos de dragão — os yao o confundiram com um dos seus.”
Xiang Cheng abaixou a cabeça novamente e examinou o olho esquerdo de Chi Xiaoduo. Sua expressão era de total impotência.
“O que exatamente aconteceu com o meu olho?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Não é nada”, respondeu Xiang Cheng. “Não pergunte sobre isso agora e não conte a ninguém; caso contrário, vai causar muitos problemas.”
Chen Zhen acrescentou com frieza: “Pelo menos você não precisa mais esconder seus assuntos dele.”
Xiang Cheng não disse nada.
Chi Xiaoduo recostou-se em Xiang Cheng, tomado por um sono profundo. Mal havia adormecido quando, pouco depois, ouviu o som de uma maré vindo do fim do longo corredor — um farfalhar que se aproximava.
“Prepare-se”, disse Chen Zhen.
Xiang Cheng sacou o Cajado de Subjugação de Yao. Sem entender bem a situação, Chi Xiaoduo observou Chen Zhen tirar de sua bolsa uma esfera de luz de vidro e colocá-la na palma da mão esquerda.
O som de farfalhar tornava-se cada vez mais intenso e a água agitava-se no fim do longo corredor; no entanto, eles conseguiam ouvir o ruído, mas não enxergar a água. Xiang Cheng e Chen Zhen posicionaram-se de costas um para o outro, com Chi Xiaoduo no meio, enquanto o silêncio reinava no corredor.
O som de água em forte correnteza tornou-se cada vez mais alto; ao ouvir um ruído de correnteza intensa, Chi Xiaoduo sentiu como se tivesse sido submerso em um fluxo invisível de água. No entanto, a passagem permanecia inalterada; o vison e o pássaro branco inspiraram profundamente ao mesmo tempo, enquanto o brilho de encantamentos irrompia ao redor de Chen Zhen e Xiang Cheng.
“Respire fundo”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo estava completamente confuso, mas respirou fundo.
“Luz brilhante sobre montanhas e mares, dez mil demônios recuem——”
“Lâmpada Ardente Infinita; que a luz brilhe sobre o mundo——”
“Quebre!” Chen Zhen e Xiang Cheng rugiram ao mesmo tempo. Num instante, o Cajado de Subjugação de Yao e a lâmpada de vidro irromperam simultaneamente em uma luz ofuscante e brilhante. Com um estrondo, Chi Xiaoduo sentiu a água fria surgir do nada e erguê-lo enquanto inundava todo o espaço; em seguida, uma força imensa o arrastou rapidamente junto com a correnteza. Chi Xiaoduo soltou uma sequência de bolhas, mas Xiang Cheng virou-se na água e o abraçou. Os três foram juntos empurrados pela correnteza poderosa para fora do canal!
“Coff…” Chi Xiaoduo engasgou com a água e esticou a mão em desespero para se agarrar a qualquer coisa, mas Xiang Cheng o mantinha seguro. Tonto e desorientados, eles foram levados pela correnteza impetuosa até que a pressão em seus ouvidos subitamente diminuiu — haviam emergido em uma vasta área aberta.
O sol da manhã começava a surgir no horizonte; Xiang Cheng, ainda segurando Chi Xiaoduo, nadava ao lado de Chen Zhen em direção à superfície dourada e cintilante do lago, logo acima de suas cabeças.
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Notas:
1 见杨过误终身 (Jiàn yángguò wù zhōngshēn) Esta é uma referência literária famosa. Yang Guo é o protagonista do clássico romance wuxia “O Retorno do Condor” (神雕侠侣) de Jin Yong. Esta frase se refere ao fato de que várias personagens femininas da história se apaixonam por Yang Guo e ficam solteiras para sempre por causa disso
2 菜市口 (Càishìkǒu): Um cruzamento histórico famoso em Pequim. Durante a dinastia Qing, servia como o principal local de execuções públicas da cidade.
3 鼓楼 (Gǔlóu): Edificação histórica monumental localizada na zona central de Pequim, usada nas dinastias Yuan, Ming e Qing para anunciar o tempo.
4 烟袋斜街 (Yāndài Xiéjiē): Uma das ruazinhas históricas (hutongs) mais antigas e conhecidas de Pequim, famosa pelo seu formato inclinado que lembra um cachimbo tradicional. Se quiser saber mais
5 耋先生 (Dié Xiānshēng): O jogo de palavras aqui é que “Mestre Die” soa como “Senhor Idoso/Ancião” e “Diexian”.
6 第二声 (dì-èr shēng): No mandarim, as palavras possuem tons específicos. Os caracteres como 耋 (dié – ancião), 蝶 (dié – borboleta) e 叠 (dié – dobrar) possuem o mesmo som, mas significados e numerais de traços totalmente diferentes.
7 耄耋 (màodié): Expressão chinesa que se refere a pessoas muito idosas. 耄 (mào) significa “idoso de setenta anos” (ou oitenta, dependendo da fonte) e 耋 (dié) significa “idoso de oitenta anos”. Juntos, 耄耋 (màodié) é usado para descrever alguém de idade avançada, geralmente na casa dos setenta/oitenta anos ou mais.
Flor: Quero só deixar claro, pra não ficar confuso >.< desculpem.
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Flor: Sei que posto a cada 15 dias, mas darei uma pausa, pois vou traduzir o extra do meio outono deste ano e ele é grande!
Quem sabe consigo trazer 2 capítulos também?!
Até mais