Capítulo 25
Eles chegaram a Pequim às oito da noite.
O calor abafado do início do verão ainda não havia se dissipado totalmente quando Chi Xiaoduo e Xiang Cheng saíram da estação, em meio à multidão que fervilhava.
Chi Xiaoduo sentia que ele e Xiang Cheng eram como dois trabalhadores migrantes que vieram tentar a sorte em Pequim; sentia aquele tipo de medo associado a deixar a terra natal para trás, sem ter onde ficar. Xiang Cheng carregava duas mochilas, segurava uma sacola de plástico e ainda tentava ligar para alguém.
“Sim.”
“Certo.”
“Tudo bem, trouxe alguém comigo.”
Xiang Cheng manteve a atenção em Chi Xiaoduo, sem nunca perdê-lo de vista, antes de finalmente desligar o telefone.
“Para onde vamos?” Chi Xiaoduo perguntou. “O hotel já foi reservado?”
Xiang Cheng disse: “Um amigo conseguiu um lugar para ficarmos. Pegue a Linha 2 até Xizhimen e depois faça a baldeação para a Linha 13 em direção a Longze. Aí pegamos o ônibus… qual linha mesmo? Cinco paradas… e depois uma caminhada de… quanto tempo?”
Chi Xiaoduo: “……”
Depois de se espremer para entrar no vagão do metrô, Chi Xiaoduo perguntou: “Em qual estação fazemos a baldeação?”
Xiang Cheng ficou com uma expressão de total confusão.
Chi Xiaoduo: “……”
“Já sei.” Xiang Cheng estalou os dedos.
“GPS”, disse Chi Xiaoduo, ao ter uma ideia.
Xiang Cheng falou: “Também tenho um amigo em Pequim que trabalha como funcionário público, vou perguntar para ele.”
Chi Xiaoduo estava tão espremido que ficou colado em Xiang Cheng; sem conseguir alcançar nem as alças de apoio, teve que se segurar no braço dele. Xiang Cheng fez uma ligação, mas ninguém atendeu do outro lado, então não teve escolha senão ligar de volta para a primeira pessoa que havia organizado a acomodação.
Na hora de trocar de linha no metrô, precisaram esperar duas composições passarem antes de finalmente conseguirem se espremer para entrar no vagão certo. Chi Xiaoduo estava muito cansado e, sob a luz fraca, acabou cochilando enquanto abraçava Xiang Cheng. De tempos em tempos, Xiang Cheng virava a cabeça para observar os arredores, como se estivesse em alerta. Pequim era grande demais, e as trocas de linha — lentas, longas e monótonas — pareciam intermináveis. Cada pessoa ali estava a bordo de algum meio de transporte, avançando em alta velocidade rumo à próxima estação de suas vidas — um destino que nem elas mesmas conheciam.
“Chegamos”, disse Xiang Cheng, dando um leve toque em Chi Xiaoduo.
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Tarde da noite, os dois caminhavam sob a luz dos postes enquanto procuravam o endereço. Xiang Cheng perguntou: “Você se arrepende de ter vindo?”
“Não.” Chi Xiaoduo reuniu forças. Na verdade, ele sentia um certo arrependimento, mas, como estava com Xiang Cheng, ainda aguardava com entusiasmo a vida que teriam pela frente. Xiang Cheng parou de andar e observou Chi Xiaoduo atentamente.
“Seu olho está melhor?” Xiang Cheng perguntou.
“Hã?” Na verdade, não havia nada de errado com os olhos de Chi Xiaoduo. Mesmo assim, Xiang Cheng usou a mão para abrir as pálpebras do olho esquerdo dele e examinar a região sob a luz dos postes.
“Está muito vermelho?”
“Não.” Xiang Cheng imediatamente o soltou.
Seguindo o endereço na mensagem de texto, os dois encontraram o sexto andar e bateram na porta.
“Xiang Cheng?” Um homem sem camisa perguntou, com um cigarro no canto da boca.
Xiang Cheng assentiu; o homem lhe entregou as chaves e disse: É o quarto no final do corredor.”
Era uma residência com três quartos e uma sala de estar, mas havia sido reformada para criar cinco cômodos com a adição de uma divisória de madeira. Alguém tocava violão, outros jogavam cartas e, ao passar pelo maior cômodo, Chi Xiaoduo espiou com curiosidade, apenas para ver duas garotas pendurando roupas para secar lá dentro.
Xiang Cheng abriu a porta e, no mesmo instante, o coração de Chi Xiaoduo disparou de alegria.
Só tinha uma cama!!
Isso era bom demais.
“Vamos ficar aqui por enquanto”, disse Xiang Cheng. “Amanhã vou dar uma perguntada para ver se encontro um condomínio melhor.”
“Não tem problema nenhum!” Chi Xiaoduo disse com sinceridade. “Aqui já está ótimo!”
Enquanto Xiang Cheng arrumava as coisas, Chi Xiaoduo foi dar uma olhada no banheiro: estava uma bagunça completa e o aquecedor de água parecia prestes a explodir a qualquer momento. Ele tomou um banho rápido; como não havia ar-condicionado, os dois se deitaram lado a lado na cama.
“Vamos comprar uma esteira de bambu amanhã”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo, com o cabelo curto ainda úmido, respondeu: “É, este lugar é até bem divertido.”
“Não é nada mal”, disse Xiang Cheng. “Quando eu estava sem dinheiro, cheguei até a dormir debaixo de viadutos. Durma um pouco; a viagem de trem te deixou cansado.”
Os dois apagaram as luzes. Lá fora, alguém gritou: “Vou dormir, pare de tocar violão!”, e, com isso, o mundo silenciou. O silêncio era ocasionalmente quebrado por uma ou outra risada baixa de uma garota.
“Xiang Cheng”, disse Chi Xiaoduo suavemente na escuridão.
Xiang Cheng não respondeu, então Chi Xiaoduo o cutucou de leve com o cotovelo.
“Estou ouvindo”, respondeu Xiang Cheng.
“Onde está Si Gui?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Não se preocupe com ele”, disse Xiang Cheng. “Ele saiu sozinho para procurar comida. Está com calor? Deixe-me abanar você um pouco.”
“Não precisa”, disse Chi Xiaoduo.
Os dois ficaram em silêncio por mais algum tempo, até que Chi Xiaoduo perguntou em voz baixa, na escuridão: “Será que vou te trazer mais problemas por ter vindo com você para Pequim desse jeito?”
“Não”, disse Xiang Cheng. “Por que você diz isso? Eu quero estar com você; não ficaria tranquilo deixando você lá em casa.”
“Não é nada demais”, disse Chi Xiaoduo, sentindo-se um pouco apreensivo.
“Você não ia trabalhar”, disse Xiang Cheng, “então o que faria em casa? Fiquei com medo de você se sentir sozinho, por isso vir comigo é perfeito.”
“Hum.” O coração de Chi Xiaoduo se acalmou, e ele se aproximou de Xiang Cheng. Ele percebeu que o clima em Pequim estava realmente muito quente e que não havia ventilador no quarto; teria de comprar um no dia seguinte.
Chi Xiaoduo queria dizer mais alguma coisa, mas temia que Xiang Cheng quisesse dormir e que continuar falando pudesse incomodá-lo. Ele se perguntou: será que abraçar Xiang Cheng o deixaria desconfortável? E se ele fingisse que sua posição para dormir não estava boa e se agarrasse a ele como um coala?
Chi Xiaoduo esperou Xiang Cheng cair em sono profundo para poder se aproximar aos poucos; a respiração de Xiang Cheng estava regular, embora não desse para saber se ele havia realmente adormecido. Após uma longa espera na escuridão, Chi Xiaoduo ouviu o quarto ao lado começar a fazer a cama ranger.
Aquele apartamento alugado era voltado para o pessoal que vinha tentar a sorte em Pequim, então o isolamento acústico era péssimo. O balanço da cama vinha acompanhado pela respiração pesada de um homem, enquanto a outra pessoa parecia exercer um enorme autocontrole, contendo a voz o tempo todo. O vigor daquele homem era impressionante; em meio à respiração ofegante, ele perguntava: “Está gostoso?”, “O maridão é grande ou não?”.
Chi Xiaoduo ouvia aquilo a ponto de enlouquecer; deitado de bruços na cama, estava morrendo de vergonha, sem coragem de dar um único passo ou movimento, rezando em silêncio para que aquilo acabasse logo. No entanto, a atividade no quarto ao lado se prolongou por quase meia hora. Nesse intervalo, Xiang Cheng se virou duas vezes e, em uma delas, acabou encostando o pé no pé de Chi Xiaoduo.
Chi Xiaoduo engoliu em seco. Xiang Cheng virou-se de lado, colocou uma das mãos na cintura dele e o abraçou por trás.
O coração de Chi Xiaoduo disparou; ele se perguntava se deveria se virar e abraçar Xiang Cheng. Pouco depois, sentiu Xiang Cheng se mover — parecia que ele havia levantado a cabeça do travesseiro para olhá-lo.
Chi Xiaoduo estava morrendo de nervoso, mas não se atrevia a fazer o menor movimento. No quarto ao lado, o ranger da cama finalmente parou; a porta do quarto se abriu, seguida pela do banheiro, e ouviu-se o som de água enquanto alguém tomava banho.
Chi Xiaoduo pensou: esse apartamento compartilhado é demais mesmo.
Os dois estavam deitados muito próximos e o calor começava a incomodar, então Xiang Cheng se virou para o outro lado novamente. O coração de Chi Xiaoduo acelerou, mas Xiang Cheng não voltou à posição anterior. Chi Xiaoduo havia passado um dia e uma noite inteiros no trem e estava exausto. Suas pálpebras pesaram e, logo, ele também adormeceu.
No meio da noite, Chi Xiaoduo começou a se coçar desesperadamente pelo corpo inteiro.
“Está com calor?” Xiang Cheng perguntou.
“Mosquitos…” murmurou Chi Xiaoduo. Ele estava à beira das lágrimas enquanto se revirava.
Xiang Cheng pegou um livro para abaná-lo; em seu estado de semiconsciência, Chi Xiaoduo acabou se agarrando a Xiang Cheng, que passou a noite inteira abanando-o para refrescá-lo.
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Assim, eles começaram a vida em Pequim. Em junho, a capital já estava um pouco quente e, embora o calor do verão não se comparasse ao de Guangzhou, o mais difícil de suportar era a falta de ar-condicionado em casa. Durante o dia, Xiang Cheng levava Chi Xiaoduo para passear — trocando de ônibus várias vezes e cruzando a cidade em busca de lanches — antes de passar o resto do dia na biblioteca.
“Isso aqui também é material de estudo?” Chi Xiaoduo olhava com estranheza para os volumes de Em Busca do Sobrenatural e Youminglu¹ que Xiang Cheng carregava.
“Lendas locais”, disse Xiang Cheng. “Essenciais para um guia turístico.”
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng franziu levemente a testa ao olhar para os dois livros; embora reconhecesse os caracteres tradicionais — de fato, conhecia a maioria deles individualmente —, o significado conjunto lhe escapava. Textos antigos eram, de fato, o tormento de sua existência.
“Você quer um texto explicativo?” Chi Xiaoduo observava os dedos de Xiang Cheng percorrerem e examinarem o conteúdo, linha por linha.
“Não precisa”, respondeu Xiang Cheng. “As seções comentadas têm suposições demais. Me ajuda a ver se tem o Livro dos Deuses e das Coisas Estranhas e o Kongshi Zhiguai².”
Chi Xiaoduo: Você quer o Clássico das Montanhas e Mares e o Huainanzi³ também?”
“O Clássico das Montanhas e Mares não é confiável; é antigo demais”, respondeu Xiang Cheng. “O Huainanzi e os Registros de Assuntos Diversos⁴.”
Chi Xiaoduo foi buscar os livros, enquanto Xiang Cheng examinava o material do guia turístico, fazendo anotações diligentes sobre a introdução às regiões e folheando diversas outras obras. Como sempre fora um aluno brilhante, Chi Xiaoduo pensou que, já que não tinha nada melhor para fazer, poderia aproveitar para obter uma certificação de engenheiro de custos⁵; assim, quando terminasse de curtir a vida, poderia exibir o diploma e ganhar uma renda extra.
Eles continuaram assim por quase meio mês: estudando por conta própria durante o dia e ouvindo a cama ranger à noite. Chi Xiaoduo, na verdade, gostava muito desse estilo de vida — especialmente da sensação de estudar com afinco ao lado de Xiang Cheng todos os dias para uma prova —, pois era como se os dois estivessem revivendo a época da universidade. Eles haviam voltado àqueles verões despreocupados no campus, vestindo camisetas brancas e shorts, cada um se dedicando ao seu próprio objetivo na sala de estudos coletiva.
Xiang Cheng mobiliou o quarto onde estavam hospedados e comprou alguns eletrodomésticos; exceto pelo primeiro dia, quando Chi Xiaoduo esteve bem grudado a ele, não houve outra oportunidade para isso desde então. Chi Xiaoduo vivia à espera de uma chance de conseguir abraçá-lo um pouco, de uma maneira que parecesse natural e lógica.
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Num dia do final de junho, o clima estava abafado ao extremo. Chi Xiaoduo acordou no meio da noite, virou-se para o lado e percebeu que a cama estava vazia; Xiang Cheng havia saído, e ouviam-se ruídos vindos do banheiro.
Chi Xiaoduo achou que ele só tinha ido fazer xixi, então ficou de bruços para continuar dormindo. No entanto, meio zonzo de sono, ouviu o barulho da porta do quarto ao lado se abrindo: o vizinho tinha terminado de fazer a cama ranger e estava indo tomar banho. Chi Xiaoduo despertou no mesmo instante.
Para onde Xiang Cheng havia ido?
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Nuvens escuras cobriam a lua, e a cidade inteira estava sob um calor sufocante.
Xiang Cheng segurava uma garrafa de cerveja; estava sem camisa, vestindo apenas uma bermuda esportiva branca, o corpo coberto de suor. Sentado no canteiro de flores perto da Rua Huilongguan, ele ouvia música e bebia sua cerveja em silêncio sob a luz do poste.
Seu cabelo estava cortado bem curto, e havia em seu olhar uma intensidade afiada que ele não conseguia esconder. Fincado no canteiro de flores ao seu lado estava o Cajado de Subjugação de Yao.
Um velho se aproximou, apoiando-se em uma bengala; Xiang Cheng estendeu seu Cajado Subjugador de Yao para bloquear o caminho do homem.
“Eu não matei ninguém”, disse o velho, com a voz trêmula. “A mercadoria também não está comigo, jovem; não é bom nutrir tanto ressentimento. Eu sabia que você viria hoje.”
Xiang Cheng disse friamente: “Esperei dezessete noites por você. Venha comigo.”
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Às duas da manhã, Chi Xiaoduo sentia a brisa do ventilador em seu rosto, com uma expressão de desespero.
Para onde ele tinha ido? Para onde ele foi… onde exatamente ele poderia ter ido?! Chi Xiaoduo estava quase enlouquecendo. Como assim ele não estava em casa no meio da noite? Teria ido encontrar um cliente? Impossível! Não me diga que ele voltou para a sua antiga profissão?!
Chi Xiaoduo tomou banho num estado de agitação e depois deitou-se na cama à espera — sentindo como se cada minuto se arrastasse infinitamente — enquanto as três, quatro e cinco horas da manhã passavam.
Quando o dia amanheceu, Chi Xiaoduo estava à beira das lágrimas.
Às 8H30, Xiang Cheng ainda não havia retornado; Chi Xiaoduo tentou ligar para ele, mas o celular estava desligado.
Não pode ser… será que a bateria acabou? Chi Xiaoduo estava à beira do desespero.
Às dez da manhã, Chi Xiaoduo sentia-se exausto e faminto… por que Xiang Cheng ainda não tinha voltado?
Às duas da tarde, o casal do quarto ao lado estava no meio de uma discussão feia, aos gritos. Chi Xiaoduo desabou de cara na cama, nas últimas forças. Sem aguentar mais, acabou caindo no sono de novo.
Quando acordou, os outros moradores do alojamento já tinham voltado e faziam aquela barulheira toda enquanto tomavam banho. O quarto continuava no escuro. Chi Xiaoduo deslizou a tela do celular: eram dez da noite, e não havia nenhuma chamada perdida.
Não pode ser… ele ainda não voltou?
Chi Xiaoduo sentiu um aperto no peito, pressentindo que algo grave estava acontecendo; ele ligou para sua melhor amiga, mas a ligação não foi atendida.
Da meia-noite de ontem até as 22h de hoje — já se passavam quase vinte e quatro horas. O que estava acontecendo?
Chi Xiaoduo sentou-se e começou a revirar a bolsa de Xiang Cheng. Ele despejou o conteúdo de qualquer jeito sobre a cama, mas Xiang Cheng não tinha levado nada consigo… não, espere, o que era aquilo?
Havia um punhado de moedas antigas de cobre, nas quais estavam gravados os quatro caracteres “montanha, mar, brilhante, luz”, alguns guardiões de pedra completamente idênticos àquele colocado na cabeceira da cama, além de um guarda-chuva surrado com as varetas expostas. Chi Xiaoduo nunca tinha mexido na bagagem de Xiang Cheng antes, nem vasculhado a bolsa dele, e havia tantas coisas estranhas ali dentro.
Não havia a menor possibilidade de Xiang Cheng abandoná-lo e desaparecer por vinte e quatro horas sem dizer nada. Só havia uma possibilidade: ele havia desaparecido.
Os olhos de Chi Xiaoduo imediatamente se encheram de lágrimas, e ele quase desabou a chorar. Ele se apressou em dizer a si mesmo: Calma, calma, você não pode entrar em pânico. Será que Xiang Cheng havia sido assaltado ao sair no meio da noite para comprar algo? Quanto mais Chi Xiaoduo pensava nisso, mais medo sentia, e ele massageava as têmporas. Deveria chamar a polícia? Decidiu que iria primeiro à polícia.
Chi Xiaoduo estava sem comer o dia todo e sentiu a cabeça girar ao descer as escadas, apenas para descobrir que havia começado a chover em Pequim. Os carros passavam de um lado para o outro e, ao atravessar a rua, ele quase foi atropelado; felizmente, foi apenas um susto e ele estava bem. No entanto, aquele incidente fez sua mente seguir por um caminho específico, e ele cogitou uma possibilidade: será que Xiang Cheng havia sido atropelado ao descer para fazer compras?
Não, não, não se assuste desse jeito.
Chi Xiaoduo dirigiu-se à Delegacia de Polícia de Huilongguan; meia hora depois, estava sentado no balcão de atendimento — parecendo um pinto molhado — e ofegava pesadamente.
“Não fique nervoso”, disse o policial, servindo-lhe um copo d’água. “Fale devagar: o que aconteceu?”
“Meu amigo desapareceu”, disse Chi Xiaoduo.
“Há quanto tempo ele desapareceu?”
“Um dia… um dia e uma noite.”
A chuva diminuiu um pouco, e Chi Xiaoduo enfrentou o mau tempo ao sair da delegacia. Como ainda não haviam se passado 72 horas, ele não pôde registrar uma ocorrência oficial; o policial apenas anotou as informações e mandou Chi Xiaoduo voltar para casa e aguardar.
Sua melhor amiga ligou, e Chi Xiaoduo estava à beira de um ataque de nervos. Ele soltou um grito: “O Xiang Cheng desapareceu!”
“Hum”, disse a amiga, permanecendo indiferente, aplicando loção no rosto diante do espelho. “E daí? É só voltar. O que você está fazendo aí em Pequim? Venha para casa — vamos aprender a fazer arranjos florais.”
Chi Xiaoduo respondeu: “Para de brincadeira! Estou morrendo de ansiedade!”
Sua melhor amiga disse: “Deixe-me dizer, hoje eu vi um livro, onde depois que o gong confirmou seu relacionamento com o shou e eles foram para a cama, no dia seguinte o cara simplesmente evaporou do mapa. Não leve esse tipo de coisa tão a sério; volte para casa, talvez a outra parte realmente tenha se apaixonado por você, mas sente que não tem as qualificações para estar com você…”
“Impossível”, disse Chi Xiaoduo, desanimado. “Não acredito nisso. Alguém que estava perfeitamente bem num momento e de repente desaparece… com certeza há algo errado. Além disso, Xiang Cheng não é esse tipo de pessoa.”
“Você pode conhecer o rosto de uma pessoa, mas não o coração dela”, respondeu sua melhor amiga. “Quer saber? Não entre em pânico ainda. Espere mais um dia; se ele ainda não tiver voltado, pego um avião para Pequim e te ajudo a procurá-lo.”
“O que houve?” A voz de Qi Wei veio do outro lado da linha.
“Qiqi!” Chi Xiaoduo disse. “Rápido, deixe eu falar com o Qiqi.”
Qi Wei atendeu o telefone e Chi Xiaoduo explicou a situação; Qi Wei apenas ouviu em silêncio. Lembrando-se do que Xiang Cheng dissera antes de partir, Chi Xiaoduo perguntou: “Xiang Cheng mencionou que você pediu a ele para resolver algo para você; o que era? É perigoso? O que exatamente vocês dois estão tramando pelas minhas costas?”
Qi Wei respondeu: “Não se preocupe, vou entrar em contato com meu amigo em Pequim agora mesmo. Ainda nem passei a tarefa para ele; só soube que ele iria a Pequim para fazer uma prova e comentei o assunto casualmente.”
Chi Xiaoduo deu um suspiro, combinou de manter contato com Qi Wei caso surgisse qualquer novidade e voltou para casa.
Ficar ali sentado, sem fazer nada, também não ia resolver nada. Chi Xiaoduo pensou um pouco e concluiu que ainda precisava dar um jeito de fazer alguma coisa.
Ele bateu de porta em porta e, depois de dar uma volta e perguntar por aí, descobriu que nenhum dos outros moradores do apartamento sabia para onde Xiang Cheng tinha ido. Apenas um homem de óculos, que morava no quarto ao lado, disse: “O seu gege? Eu esbarrei com ele ontem à noite.”
“Onde?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Na loja de conveniência do lado de fora do Novo Distrito de Huilongguan”, disse o homem de óculos. “Vi que ele tinha acabado de correr e estava comprando cerveja. O que houve? Ele não voltou a noite toda?”
Chi Xiaoduo pegou o guarda-chuva avariado de Xiang Cheng e saiu novamente. Enfrentando a garoa, ele abriu o guarda-chuva preto e caminhou pela rua até encontrar a loja de conveniência que o homem de óculos havia mencionado. Ele tirou o celular e perguntou ao atendente se aquela pessoa havia passado por ali para comprar algo na noite anterior.
Por acaso, era o mesmo atendente que havia trabalhado no turno da noite; ele se lembrava bem daquele rapaz atlético e bonito, com músculos peitorais bem definidos. Após obter as informações de que precisava, Chi Xiaoduo continuou a busca pelo caminho.
Chi Xiaoduo percorreu duas vezes a rota que Xiang Cheng havia feito, mas não obteve sucesso.
A chuva fina rodopiava no ar, cobrindo o céu escuro enquanto caía sobre o mundo dos humanos e sobre a vasta extensão de terra. Sob a névoa amarelada dos postes de luz, a chuva parecia fios de pêlo de boi6. Chi Xiaoduo ergueu a cabeça debaixo do guarda-chuva, fixando o olhar no céu.
Às onze da noite, Chi Xiaoduo abriu a porta da casa alugada. O interior estava em absoluto silêncio, quebrado apenas por um riso abafado.
Dois policiais estavam na entrada, acompanhados por um jovem. A expressão de Chi Xiaoduo mudou, e sua mente imediatamente imaginou a cena típica de filme em que o policial lhe diria: “Olá, jovem camarada, encontramos o corpo do seu amigo”.
Um vison estava empoleirado em um dos ombros do jovem e encarava Chi Xiaoduo com um olhar penetrante. Chi Xiaoduo sustentou o olhar do animal por um instante, tentando adivinhar a identidade do rapaz.
“Olá”, o jovem estendeu a mão, cumprimentando Chi Xiaoduo.
“Olá”, disse Chi Xiaoduo, acenando sem entender nada.
“Deixa eu me apresentar: meu nome é Chen Zhen”, disse o rapaz. “Sobre o resto, vamos conversar lá na delegacia.”
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Notas:
1 搜神记》 (Sōushén Jì) e 《幽明录》 (Yōumíng Lù): Soushen Ji: Coleção clássica da Dinastia Jin Oriental (século IV) compilada por Gan Bao, repleta de contos sobre espíritos, deuses e fenômenos sobrenaturais.
Youming Lu: Compilação de contos sobre o mundo dos mortos e aparições atribuídas a Liu Yiqing, escrita durante a Dinastia Liu Song.
2 《神异经》 (Shēnyì Jīng): Atribuído tradicionalmente a Dongfang Shuo, da Dinastia Han, descreve geografias e criaturas míticas.
《孔氏志怪》 (Kǒng Shì Zhìguài – Um descendente do Clã Kong se livra de Monstros): Coleção clássica de contos sobre fenômenos estranhos e espíritos, é da Dinastia Han Oriental.
3 《山海经》 (Shānhǎi Jīng – Clássico dos Montanhas e Mares): O mais famoso compêndio de mitologia e geografia antiga chinesa.
《淮南子》 (Huáinánzǐ): Texto filosófico e enciclopédico da dinastia Han que aborda cosmologia e saberes esotéricos.
4 《博物志》 (Bówù): Compêndio de curiosidades, botânica, geografia e lendas escrito por Zhang Hua.
5 注册造价师 (Zhùcè zàojiàshī) Profissional responsável pelo orçamento, valoração e estimativa de custos de grandes obras e projetos na engenharia civil/arquitetura.
6 如牛毛 (Rú niúmáo): Metáfora clássica da literatura chinesa para descrever uma garoa extremamente densa, contínua e fina, cujos fios d’água parecem pelos de boi/vaca.
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Flor: Meu marido entrou em cena >.<
Bora ir atrás do Xiang Cheng!