Capítulo 21
A noite foi marcada por ventos fortes e tempestades. Ao chegarem em casa, tudo estava normal. Xiang Cheng fechou as portas e janelas e não saiu mais durante toda a noite, ficando ao lado de Chi Xiaoduo.
Chi Xiaoduo sentiu o corpo relaxar completamente ao se deitar na cama, com a sensação de que tudo não passara de um sonho. O nervosismo da noite anterior, somado ao cansaço de ter dormido poucas horas, fez com que ele adormecesse rapidamente; quando abriu os olhos novamente, já era uma manhã ensolarada.
Na sala de estar, Xiang Cheng preparava o café da manhã; estava sem camisa e usava um avental.
“…Na noite passada, a região de Guangzhou foi atingida pela tempestade mais severa dos últimos quarenta anos…”
“Meteorologistas do distrito de Haizhu observaram um fenômeno climático raro…”
Bocejando, Chi Xiaoduo saiu vestindo pijama e parou diante da televisão para assistir ao programa. Ele notou que, sobre a mesa de centro, havia um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro.
“O acumulado de nuvens de chuva em espiral formou um buraco devido à queda repentina de pressão”, disse um especialista ao apresentador do telejornal. “Podemos ver que o cenário é de uma beleza impressionante. Os raios se concentram todos aqui, parecendo uma teia de aranha radioativa.”
Chi Xiaoduo pensou, inexpressivo: O encobrimento dessa história foi realmente perfeito, foi parar até no jornal.
Chi Xiaoduo navegava pelo Weibo; o feed estava repleto de discussões sobre as ondas revoltas na Ponte Zhujiang na noite anterior e da tempestade furiosa que varreu a cidade, como se o apocalipse tivesse chegado. Havia até gente dizendo que, na noite passada, algum grande santo ou imortal devia estar passando por uma tribulação celestial ou algo do tipo.
“Já acordou?” Xiang Cheng perguntou, vindo da cozinha.
“Hum.” Chi Xiaoduo bocejou novamente e então se lembrou do trabalho. “Droga! Vou chegar atrasado!”
Xiang Cheng respondeu: “Seu escritório ligou; pedi uma folga para você.”
Que bom, que bom, pensou Chi Xiaoduo ao se sentar para comer. Xiang Cheng havia preparado duas tigelas de congee de arroz com carne magra — o congee foi cozido lentamente no fogão — acompanhadas de ovos fritos até atingirem o tom dourado e macio, camarões marinados e tofu macio no vapor, servido com molho de soja para acompanhar.
Xiang Cheng também preparou um prato de sementes de gergelim e arroz de jasmim, colocando-o sobre a mesa de jantar. Si Gui voou até lá, pousou na mesa e comeu junto com os dois.
A mente de Chi Xiaoduo estava a mil. Ele se lembrava dos acontecimentos do dia anterior com perfeita clareza — então, quando sua memória será apagada? Será que Xiang Cheng o levaria para cheirar o pó do potinho de rapé?
“Você está de mau humor?” Xiang Cheng perguntou.
“Não”, respondeu Chi Xiaoduo com um sorriso, mexendo seu mingau com uma colher.
Xiang Cheng não disse nada enquanto tomavam o café da manhã em silêncio. Então, falou novamente: “Você trabalhou bastante. Quer dar uma volta hoje?”
“De repente, me deu vontade de voltar para casa”, disse Chi Xiaoduo. “Para aquela caverna marinha.”
“A Organização já enviou pessoas para lá”, disse Xiang Cheng. “Me ligaram esta manhã.”
Chi Xiaoduo disse: “Será que os ossos de Chiwen ainda estão lá?”
“Normalmente, yaoguai não deixam rastros especiais depois de morrer”, disse Xiang Cheng. “Eles se incineram por conta própria. Além disso, Chiwen se transformou em um demônio após a morte e chegar a terra firme; portanto, não deveria haver nada de especial na caverna marinha.”
Chi Xiaoduo lembrou-se de Yang Xingjie e sentiu um aperto no peito. Soltou um suspiro e disse: “Se eu tivesse insistido naquele dia, talvez tudo tivesse sido diferente.”
Xiang Cheng balançou a cabeça e disse: “Mesmo que você tivesse levado pessoas para tratá-lo, Chiwen não poderia ser curado. No máximo, o caso voltaria a sair no noticiário — a descoberta de algum monstro mutante devido à poluição da água do mar — e, eventualmente, a Organização cuidaria disso.”
“A Organização iria matá-lo?” Chi Xiaoduo perguntou novamente.
Xiang Cheng assentiu; olhando nos olhos de Chi Xiaoduo, disse: “Xiaoduo, me escute.”
Chi Xiaoduo: “?”
Chi Xiaoduo pensou no Chiwen, aquele monstro de coração gentil que, quando criança, o considerava um amigo, e sentiu que talvez jamais conseguisse compensar esse erro pelo resto da vida.
“Humanos e yaoguai não podem ficar juntos”, disse Xiang Cheng. “O único objetivo pelo qual nós e eles podemos trabalhar juntos é: cada um viver a sua própria vida, sem interferir um no outro. Isso não é culpa sua. Também espero que, um dia, não existam mais yao que façam mal às pessoas; do contrário, se você conviver com um yao por muito tempo, seu corpo será corrompido pelo yao qi, levando ao envelhecimento precoce ou a outras complicações. Até mesmo Chiwen, antes de ser corrompido, também sabia disso.”
“Hum,” respondeu Chi Xiaoduo.
Xiang Cheng estendeu a mão por cima da mesa e disse: “Pense em algo feliz; esqueça isso.”
Chi Xiaoduo forçou um sorriso e perguntou: “Quando você vai apagar minha memória?”
Xiang Cheng: “……”
Chi Xiaoduo disse: “Tudo bem, me deixa cheirar o potinho de rapé. Assim eu também esqueço o assunto do Chiwen. A vida é assim mesmo, se você levar a sério demais, perde, não é?”
Xiang Cheng disse: “Eu não quero que você esqueça essas coisas.”
Chi Xiaoduo: “……”
“Vou pedir à organização que reconsidere”, disse Xiang Cheng. “Vou tentar impedir que façam isso.”
Chi Xiaoduo: “Isso… isso é possível?”
Xiang Cheng respondeu: “Vou fazer o meu melhor. Ah, a propósito, tenho uma boa notícia para te dar: alguém quer te ver. Depois de comermos, você se importaria de ir comigo encontrar um amigo?”
“Quem?”
“É segredo por enquanto.”
Chi Xiaoduo murmurou um “mm”.
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Era a transição da primavera para o verão, e o sol brilhava intensamente. Xiang Cheng pedalava sem pressa, levando Chi Xiaoduo na garupa. Ao atravessarem a Ponte Zhujiang, a superfície do rio estava muito calma, com a luz refletindo na água. A primeira tempestade do verão havia feito com que as fileiras de cânforas ao longo da estrada formassem densas copas de um verde-claro exuberante.
Chi Xiaoduo disse: “Precisamos comprar um carro. Vá tirar a sua carteira de motorista.”
“Depois que meu dinheiro for desbloqueado”, disse Xiang Cheng. “Está perto, no mês que vem, eu mesmo dirijo para te levar para passear.”
Chi Xiaoduo estava aguardando a emissão de seu certificado; assim que o recebesse e o registrasse na empresa de Wang Ren, poderia pegar o dinheiro e ir a qualquer lugar.
“Vou te dar um carro de presente”, disse Chi Xiaoduo, levantando um pouco a cabeça para encostá-la no rosto de Xiang Cheng. “Você me leva para passear?”
“Você não vai mais trabalhar?” Xiang Cheng perguntou, parecendo um pouco surpreso. “É um emprego tão bom.”
“Faz tempo que quero largar o emprego”, disse Chi Xiaoduo. “Viver resumido a dois pontos numa linha — ir de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Eu nem sei o que estou fazendo da vida, para falar a verdade.”
“Então, o que você quer fazer?” Xiang Cheng perguntou.
Chi Xiaoduo não respondeu. Ele pensava: é claro que quero ficar grudado em você e passar meus dias ao seu lado, mas, obviamente, não podia simplesmente dizer isso. Após um longo momento de hesitação, ele finalmente respondeu: “Quero ir caçar yao com você. Tudo bem?”
Xiang Cheng: “……”
Por dentro, Chi Xiaoduo queria se esmurrar; estava quase chorando. Por dentro, gritava: Chi Xiaoduo, você perdeu o juízo? Seu deus grego vai subjugar yaoguai — por que você está indo lá? O que você pode fazer, hein?! Carregar a bolsa dele? Se for atrás dele, só vai dar trabalho, entendeu? Desse jeito, você só serve para aparecer de penetra e acabar virando refém dos yaoguais, ai ——
“Estou só brincando”, disse Chi Xiaoduo. “Você me aceitaria como discípulo?”
Xiang Cheng pedalava sua bicicleta; ele não olhou para Chi Xiaoduo, voltando o rosto para contemplar o rio.
“Não sou como eles; não posso aceitar discípulos”, disse Xiang Cheng. “Minha família segue uma tradição em que o filho herda as habilidades do pai, e não é permitido que isso seja transmitido para pessoas de fora.”
Acontece que, quando Deus fecha uma porta para você, Ele pode muito bem usá-la para bater com força na sua cabeça. Chi Xiaoduo insistiu com teimosia: “Então, se eu for com você e houver perigo, você pode me deixar em casa. Eu prometo que não vou sair por aí nem causar problemas, tá? Se não houver perigo… aí eu fico de lado só observando. Posso ajudar a segurar sua bolsa, levar toalhas e coisas do tipo, e também posso comprar água para você.”
“Eu-eu-eu… não vou tirar fotos nem fazer vídeos; posso até bater palmas e torcer por você”, acrescentou Chi Xiaoduo.
A bicicleta fez uma curva e parou no acostamento. Xiang Cheng disse: “Espere um instante, desça.”
Chi Xiaoduo: “???”
Xiang Cheng caminhou até a beira do rio, acendeu um cigarro e olhou para as águas que corriam sem parar. Chi Xiaoduo ficou parado atrás dele.
Chi Xiaoduo colocou os fones de ouvido e deu play em uma música: “Love is Simple”, do David Tao.
“Esqueci como tudo começou; talvez tenha sido quando comecei a sentir algo por você…”
Cerca de cinco minutos depois, Xiang Cheng caminhou até Chi Xiaoduo, tirou um dos fones de ouvido e disse em seu ouvido: “Você pode.”
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng montou na bicicleta.
“Eu — te — amo —”
Enquanto a música entoava o verso, uma explosão de estrelas parecia ocorrer dentro de Chi Xiaoduo; o céu parecia desabar e a terra a abrir sob seus pés, e ele continuava ali, parado, atordoado.
“Eu disse que você pode”, falou Xiang Cheng para Chi Xiaoduo, antes de dar um tapinha no guidão da bicicleta. “Suba… hm? O que houve? Falei alguma coisa errada?”
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Xiang Cheng estava sentado no banco da bicicleta, e Chi Xiaoduo abraçava a cintura dele, com o rosto completamente vermelho, escondido contra o peito de Xiang Cheng.
“Diga que você também me ama, Oh——”
O vento soprava do rio, e milhares de flores desabrochavam ao longo do caminho. Com um farfalhar, elas foram arrancadas dos galhos ——
—— rosas, amarelo-claras, brancas — tal como os fogos de artifício festivos que explodiam no coração de Chi Xiaoduo, fazendo o mundo inteiro estremecer enquanto voavam com um estrondo para cobrir o céu e a terra.
“O que você está ouvindo?” Xiang Cheng continuava pedalando enquanto Chi Xiaoduo compartilhava um de seus fones de ouvido. Os dois seguiam na bicicleta ao som da música, passando pela loja de chá com leite, pela sorveteria, pela mercearia e pela papelaria ao longo do caminho. A rua estava banhada pela luz do sol; era como qualquer outra daquelas vias antigas, porém repletas de vida, pelas quais todo morador de Guangzhou — desde a infância até a época da escola — passava ao sair das aulas.
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As luzes e sombras sobre suas cabeças mudaram de repente: o verão havia chegado.
As sombras das árvores de cânfora projetavam-se sobre a janela do terceiro andar do hospital quando Chi Xiaoduo e Xiang Cheng entraram, carregando duas cestas de frutas.
“Vocês chegaram!” Kuang Desheng os cumprimentou; sua cabeça estava enfaixada, deixando apenas os olhos visíveis.
“Hã?!” Chi Xiaoduo ficou surpreso ao descobrir que Yang Xingjie estava na cama ao lado.
Yang Xingjie olhou para Chi Xiaoduo, sorriu e disse: “Xiaoduo? Eu me lembro de você!”
“V-v-você…”
Havia também um policial acompanhando Yang Xingjie no quarto. O policial disse: “Vocês se conhecem? A-Jie, são seus amigos?”
“Sim, isso mesmo.” Chi Xiaoduo ficou ali, atordoado, e perguntou: “O que… está acontecendo aqui?”
Xiang Cheng fez um gesto de “shh”, indicando que ele deveria ouvir.
“Naquele dia, Xingjie estava em patrulha, mas, ao passar por um canteiro de obras, um guindaste havia tombado devido à tempestade; então, ele foi dar o alerta”, disse o policial. “Um prédio em construção desabou, e ele quase foi soterrado vivo.”
Chi Xiaoduo: “……”
Yang Xingjie não tinha morrido depois de ser atingido por um raio?! Chi Xiaoduo o observava enquanto Yang Xingjie continuava: “Estou bem. Por que vocês vieram? Foi o Wang Ren quem avisou?”
“Estávamos apenas passando para ver o velho Kuang”, respondeu Xiang Cheng.
A esposa de Kuang Desheng estava sentada ao lado da cama dele; ela soltou um suspiro pesado e revirou os olhos para Xiang Cheng.
“Me desculpe”, disse Xiang Cheng.
“Foi uma missão que a Organização me deu, por que você está se desculpando?” Kuang Desheng disse. “Não diga bobagens.”
Chi Xiaoduo perguntou a Kuang Desheng: “Chefe, o que aconteceu com você?”
“Caí da minha scooter elétrica!” Kuang Desheng disse. “Meu cerebelo está descoordenado, não é nada demais, sério!”
Enquanto Xiang Cheng e Kuang Desheng conversavam, Chi Xiaoduo sentou-se ao lado da cama do doente, observando Yang Xingjie de forma estranha. Yang Xingjie perguntou, perplexo: “O que foi? Tem alguma coisa no meu rosto?”
Chi Xiaoduo apressou-se em acenar com as mãos e perguntou: “Você ainda se lembra de mim?”
“Não me lembro muito bem”, disse Yang Xingjie. “Só me lembro de que você se chama Chi Xiaoduo e que já tomamos chá juntos em Guangjiu, não foi?”
“Isso mesmo”, respondeu Chi Xiaoduo, sorrindo.
Yang Xingjie parecia um pouco confuso e olhou novamente para o colega. Chi Xiaoduo tentou sondar, dizendo: “Foi Wang Ren que me contou da última vez.”
“Ah, isso mesmo!” Yang Xingjie disse, “O Diretor Wang é meu amigo. A gente se conheceu há um tempo, numa viagem de carro.”
Chi Xiaoduo assentiu com a cabeça, e o colega policial acrescentou: “Não fale muito; ele está com uma concussão.”
Chi Xiaoduo concordou prontamente. Nesse instante, bateram à porta — Qi Wei havia chegado. Qi Wei cumprimentou Chi Xiaoduo, que ofereceu algumas palavras de conforto e disse a Yang Xingjie para se concentrar em sua recuperação; era evidente que Yang Xingjie havia esquecido a maior parte do que aconteceu.
“Xiaoduo.” Qi Wei o chamou com um gesto. Chi Xiaoduo saiu para o corredor do hospital e, pouco depois, Xiang Cheng também apareceu.
“O que está acontecendo aqui?”
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Os três conversavam de forma misteriosa no corredor.
Qi Wei disse: “Aquele policial era uma pessoa comum. Durante uma patrulha, ele encontrou por acaso o Chiwen e acabou sendo levado para servir como receptáculo para a alma do demônio. Agora que a alma do demônio se dissipou, ele voltou ao normal.”
“O corpo dele se recuperou?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Ele cheirou o Pólen Lihun”, explicou Qi Wei. “A organização o resgatou, prestou os primeiros socorros e o encaminhou ao hospital. Ele foi trazido para cá junto com o Irmão Kuang. Os superiores cuidaram de tudo; ele não deve se lembrar de nada do tempo que passaram juntos.”
Chi Xiaoduo soltou um suspiro de alívio e disse: “Graças aos céus e à terra, contanto que ele esteja vivo, está tudo bem.”
Xiang Cheng perguntou: “Você acabou de vir do Beco Yulan?”
“Hum…” Qi Wei lançou um olhar para dentro do quarto do hospital; em vez de responder diretamente a Xiang Cheng, disse a Chi Xiaoduo: “Já o Irmão Kuang, ele estava lá naquele dia para ficar de guarda e te proteger; então, faça-lhe companhia por mais um pouco.”
Chi Xiaoduo soltou uma exclamação de surpresa, enquanto Xiang Cheng franziu profundamente a testa, parecendo um pouco irritado por Qi Wei ter deixado isso escapar.
“O que eu preciso fazer?” Chi Xiaoduo disse, “Ele está muito ferido?”
“Não foi nada grave”, disse Qi Wei. “É que ele foi atacado durante a tempestade e acabou caindo; então, pedir desculpas a ele deve bastar.”
“Certo”, disse Chi Xiaoduo. “Já vou.”
Chi Xiaoduo entrou e Qi Wei fechou a porta atrás deles.
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Xiang Cheng e Qi Wei ficaram frente a frente; Xiang Cheng disse com desagrado: “Se você disser coisas assim, ele vai se sentir culpado por muito tempo.”
“Ele não vai”, disse Qi Wei. Então, ele tirou um frasco de rapé, segurou-o entre os dedos e parou bem na frente de Xiang Cheng.
Xiang Cheng permaneceu em silêncio e não aceitou.
Qi Wei disse: “O Diretor Lu me instruiu a entregar isso a você. Sei que você também está numa situação difícil.”
“Vou dar uma passada no Departamento de Exorcismo.” Xiang Cheng soltou um suspiro cansado.
“Não adianta”, disse Qi Wei. “Antes de eu vir para cá, eles estavam em uma reunião. Um caso como o de Chi Xiaoduo não atende aos requisitos; não há margem alguma para negociação. Se você for até lá e arrumar uma discussão com os superiores, que sentido isso teria? A menos que você abandone esse trabalho — mas, mesmo que diga isso, a Organização não permitirá que vocês dois mantenham as memórias de qualquer assunto do passado.”
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Chi Xiaoduo sentou-se diante da cama de hospital e disse a Kuang Desheng, tomado pela culpa: “Me desculpe…”
“Está tudo bem…” disse Kuang Desheng. “Isso não tem nada a ver com você; por que está se culpando?”
Dito isso, Kuang Desheng começou a rir alto — hahaha — enquanto sua esposa dizia, com uma expressão de impotência: “Não culpo você; você também foi uma vítima.”
Então, de quem era a culpa? Era como se todos tivessem participado de uma briga generalizada totalmente aleatória e, quando a polícia chegou, os arruaceiros tivessem se dispersado de uma só vez. Os agredidos levantavam-se cambaleando, largavam os copos e os talheres sem conseguir comer, desembainhavam as espadas, olhavam ao redor e sentiam-se completamente perdidos¹, sem nem conseguir encontrar um alvo para descontar a raiva.
Kuang Desheng disse: “Quando tiver tempo, venha mais vezes comer no meu restaurante!”
“Com certeza”, disse Chi Xiaoduo. “Toda vez que eu for, vou pedir o prato mais caro.”
A esposa do chefe estava descascando uma maçã e lançou um olhar fulminante para Kuang Desheng. Do lado de fora, Qi Wei bateu à porta, despediu-se de Chi Xiaoduo e saiu.
“Quem você deveria agradecer é Xiang Cheng”, disse Kuang Desheng a Chi Xiaoduo. “Foi ele quem mais trabalhou e quem mais se arriscou.”
“Hum.” Chi Xiaoduo pensou em como Xiang Cheng havia realmente arriscado a própria vida e não pôde deixar de sentir admiração por ele.
“Chi Xiaoduo, venha comigo.” Depois de terminar de descascar a maçã, a esposa do chefe colocou um pedaço na boca dele e saiu do quarto para ficar no corredor.
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Chi Xiaoduo estava apreensivo. Ele achava que a esposa do chefe certamente iria repreendê-lo, mas, ao chegar ao corredor, viu Xiang Cheng sozinho, debruçado no parapeito do terceiro andar do hospital, observando a paisagem lá fora.
A esposa do chefe disse: “O fato de o Velho Kuang ter se ferido não foi culpa sua.”
“Hum.” Chi Xiaoduo sentiu o nariz arder.
A esposa do chefe continuou: “Eu também não queria que ele trabalhasse nesse ramo, mas não tem outro jeito. Mas você também deu o seu melhor nessa história e, se não fosse pela sua ajuda, as coisas não teriam se resolvido tão rápido. Todo mundo poderia ter corrido risco de vida, então não fique se remoendo por isso, tá bom?”
Chi Xiaoduo sorriu. A esposa do chefe lançou um olhar para Xiang Cheng e balançou a cabeça, dizendo: “O que eu desejo é que todos fiquem bem e em paz. Levar uma vida tranquila e simples é a melhor coisa que existe.”
Chi Xiaoduo sorriu. “É verdade.”
A esposa do chefe sorriu e voltou para o quarto.
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Xiang Cheng estava parado no corredor voltado para a rua já havia algum tempo e, agora, virou-se. Chi Xiaoduo sabia que eles estavam prestes a partir, então entrou para se despedir de Kuang Desheng e Yang Xingjie.
“Eu realmente acho que o fato de Yang Xingjie ainda estar vivo é algo muito bom”, disse Chi Xiaoduo com sinceridade.
“Como vocês dois se conheceram?” Xiang Cheng perguntou.
“Em um encontro às cegas”, respondeu Chi Xiaoduo.
“Um encontro às cegas?!” Xiang Cheng exclamou, estupefato.
Chi Xiaoduo mudou de assunto imediatamente: “A minha melhor amiga, ou melhor, a irmã mais nova do Qiqi, o conheceu quando foi a um encontro às cegas.”
Xiang Cheng assentiu e disse: “Ele provavelmente já esqueceu tudo isso.”
“Imagino que sim”, disse Chi Xiaoduo. “Mas contanto que ele consiga viver bem, já é o bastante, eu não tenho grandes expectativas com ele.”
Chi Xiaoduo estava de excelente humor hoje, afinal Xiang Cheng concordou em deixá-lo acompanhá-lo. Xiang Cheng perguntou: “Aonde você quer ir para se divertir? Hoje vou te levar para passear.”
“Vamos ao meu trabalho primeiro”, disse Chi Xiaoduo. “Podemos ir nos divertir em outro dia.”
Xiang Cheng respondeu: “Vá ao escritório outro dia, eu já pedi folga para você. Vamos passear. Eu ainda nem andei direito por Guangzhou.”
Chi Xiaoduo disse: “Eu quero voltar lá primeiro para pedir demissão. Isso é bom demais, não preciso mais trabalhar, posso começar uma vida nova agora!”
Xiang Cheng: “……”
“Deixe para pedir demissão amanhã”, disse Xiang Cheng. “Escute o que estou dizendo e pense com calma nisso.”
“Já decidi isso há muito tempo”, disse Chi Xiaoduo. “Não é por causa disso. Assim que eu obtiver meu certificado, não quero mais voltar a trabalhar no escritório de design de qualquer forma; posso simplesmente pegar trabalhos como freelancer e fazer tudo de casa — não será problema. Eu só não quero mais ter que ir ao escritório todo dia, numa rotina monótona.”
Xiang Cheng não teve escolha a não ser mudar de direção e levar Chi Xiaoduo para pedir demissão. Chi Xiaoduo entrou no escritório feito um furacão e foi direto ao seu chefe.
“Hã?!” O chefe exclamou.
“Eu não vou mais trabalhar nesse ramo”, disse Chi Xiaoduo. “Quero ir atrás da minha nova vida e dos meus novos sonhos!”
O chefão insistiu: “Eu sei que você definitivamente quer mudar de cargo agora que obteve sua certificação. Que tal fazermos assim: diga-me quais condições você deseja. Vou falar com o CEO e tentar consegui-las para você.”
Chi Xiaoduo manteve-se firme: “Não, não quero mudar de cargo. Só não quero vir trabalhar por enquanto. Quero descansar em casa; estou exausto.”
Assim, Chi Xiaoduo e chefão travaram uma verdadeira queda de braço: mudar de emprego versus um aumento salarial, ou mudar de cargo versus uma carga horária reduzida. No fim, o chefe chegou a dizer que ele não precisava bater ponto diariamente e que, se não quisesse aparecer, não precisava. Sem mais recursos, Chi Xiaoduo decidiu usar sua última cartada: deitou-se de barriga para cima e começou a rolar pelo chão.
Assim se passou uma hora inteira, até que Chi Xiaoduo finalmente conseguiu convencer o chefe de que realmente não queria mais trabalhar. Ao perceber que não havia como manter Chi Xiaoduo ali, o chefão acabou cedendo.
“Quer saber? Deixe-me conversar com o CEO primeiro”, disse o chefe. “Você está se sentindo melhor?”
Chi Xiaoduo assentiu. O chefão continuou: “Você ainda precisa vir trabalhar amanhã, pois, mesmo que vá pedir demissão, ainda tem que fazer a transição das suas tarefas. Aproveite para conversar com o CEO nessa ocasião. Mesmo que não queira mais trabalhar e decida descansar, continuaremos todos amigos, não é?”
Com isso, Chi Xiaoduo conseguiu se livrar do peso que carregava; ele pediu demissão com sucesso e seguiu seu caminho para outra oportunidade. A empresa de design via gente chegando e saindo o tempo todo, e aquilo era algo muito comum. Os arquitetos tinham uma carga de trabalho enorme, e a empresa muitas vezes não conseguia reter seus profissionais; assim que alguém passava nas provas de certificação — seja em estruturas, construção, saneamento ou áreas afins —, ou mudava de emprego, ou abria o próprio escritório, ou então usava o registro profissional para iniciar um negócio com a ajuda de contatos da família. Cada um que saía parecia ir embora mais rápido que o anterior.
Poucas pessoas em Guangzhou estavam prestando o exame naquele ano, e Chi Xiaoduo era o mais jovem entre elas. Mesmo que o instituto de design lhe oferecesse uma vaga, ele não tinha intenção de ficar; deixando de lado a questão de Xiang Cheng, Chi Xiaoduo já tinha prometido a Wang Ren que iria com ele para curtir a vida boa.
Chi Xiaoduo voltou ao escritório para recolher seus pertences, e a atitude de seus colegas em relação a ele mudou imediatamente. Eles começaram a perguntar sobre seu próximo emprego, mas Chi Xiaoduo respondeu apenas que queria descansar. Um membro do departamento financeiro aproximou-se com as mãos em uma pose delicada — com os dedos curvados em formato de orquídea — e disse: “Ai, ouvi dizer que você está morando com um nortista; é verdade?”
“Sim, ele é de Chongqing”, respondeu Chi Xiaoduo com um sorriso enquanto arrumava suas coisas, sem fazer segredo disso; afinal, muitos de seus colegas já sabiam que ele era gay.
“Você não pode se casar com alguém do Norte, Chi-meimei!”, disse o colega do setor financeiro com ar sério. “Gente do Sul casa com gente do Sul, gente do Norte casa com gente do Norte; há uma grande diferença de mentalidade! Você precisa tomar cuidado!”
“Não é para tanto”, disse Chi Xiaoduo. “Muitos dos meus amigos formam casais Norte-Sul; As pessoas do Norte são honestas e bem sinceras.”
Ao lado, uma garota de Chongqing finalmente perdeu a paciência e gritou com raiva: “Quantas vezes eu já disse que Chongqing NÃO fica no Norte, hein? Não aguento mais vocês de Guangdong; vocês deixam qualquer pessoa com TOC completamente louca!”
Chi Xiaoduo corrigiu-se imediatamente: “É, é, Sichuan não fica no Norte.”
A garota de Chongqing disse: “Chongqing não faz parte de Sichuan! Chongqing é simplesmente Chongqing! E os homens da nossa grande Chongqing são todos bons maridos que conhecem os ‘Vinte e Quatro Exemplos de Piedade Filial²’, viu? Eles sabem se portar na alta sociedade tão bem quanto sabem lidar com a cozinha; são durões o suficiente para vencer uma briga de rua, mas gentis o bastante para carregar suas sacolas e te fazem companhia; e, quando chegam em casa, sempre ouvem o que a esposa diz. Onde mais você encontraria homens tão bons, hein?! Eu mesma queria achar um, mas ainda não encontrei!”
“Sério?” Chi Xiaoduo ficou com uma cara de quem tinha encontrado um tesouro e pensou consigo mesmo que Xiang Cheng realmente parecia ser exatamente assim.
“Mas é claro”, disse a garota de Chongqing. “Se você não quiser ele, passa para mim! Desde que role uma química, para mim está ótimo, não sou exigente.”
Chi Xiaoduo concordou: “Exatamente, exatamente! Se houver química, não precisa de mais nada.”
Chi Xiaoduo se despediu dos colegas com toda a sinceridade — embora, na verdade, não fosse um adeus definitivo —, abraçou uma caixa de papelão e saiu feliz como um husky que acabou de se livrar da coleira, pronto para abrir a porta de um mundo novo.
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Enquanto esperava o elevador, Chi Xiaoduo já começava a fazer planos sobre o que faria todos os dias após a demissão. Com sua constituição física frágil, a possibilidade de ser feito refém era um espinho em seu coração. Para não se tornar um fardo para Xiang Cheng, ele deveria, pelo menos, aprender algumas habilidades.
“Ei”, disse Chi Xiaoduo, ligando para sua melhor amiga. “Pedi demissão.”
“Parabéns”, disse a amiga, que tinha acabado de acordar ao meio-dia, dando um bocejo. “Você realmente pediu demissão. E agora, o que vai fazer?”
“Vamos aprender taekwondo”, disse Chi Xiaoduo. “De repente, deu vontade de aprender a lutar.”
“Eu já sou uma guerreira, consigo subir seis lances de escada carregando um galão de água num pé só!” esbravejou a amiga do outro lado da linha. “E você quer que eu vá aprender taekwondo? Você quer mesmo me impedir de arranjar um namorado?!”
Chi Xiaoduo respondeu apressadamente: “Dá sim para arranjar namorado aprendendo taekwondo! Talvez encontre algum colega de treino que seja um garoto bonito e de rosto angelical ao seu gosto e, depois de muita interação e contato físico — como num sonho —, vocês possam ter…”
A melhor amiga foi atingida em seu ponto fraco e, depois de pensar um pouco, disse: “Isso dá para considerar.”
Chi Xiaoduo acrescentou: “E também serve para se defender de tarados e para entrar em forma, que maravilha. Já aproveita e me inscreve; te dou o dinheiro amanhã.”
A amiga respondeu: “Taekwondo é bruto demais, vamos fazer judô, vai. Os caras bonitos que praticam judô têm uma força na cintura excelente.”
Chi Xiaoduo respondeu: “Qualquer um serve, desde que eu aprenda a lutar. Combinado, então; nem pense em me dar cano hein!”
“Tá bom ——” disse a amiga, desanimada.
Chi Xiaoduo desligou o telefone; Xiang Cheng estava esperando há duas horas, observando um anúncio de vaga para um restaurante no andar de baixo.
“Você poderia trabalhar como chef”, disse Chi Xiaoduo. “Por que não tenta?”
Xiang Cheng respondeu: “Cozinhar para pessoas desconhecidas tira a minha inspiração. Só quando cozinho para quem é importante para mim é que consigo extrair o melhor sabor de cada ingrediente. Terminou o que tinha para fazer?”
Chi Xiaoduo estava tão feliz que mal sabia onde estava com a cabeça e respondeu: “Já resolvi tudo, já podemos passear. Vamos.”
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Nesta tarde, os dois passearam pela rua de comidas típicas e depois foram assistir a um filme. Nas lembranças de Chi Xiaoduo, fazia muito tempo que ele não se sentia tão feliz. Era como se tivesse voltado à infância; todas aquelas cores eram simples e diretas, e a vida, livre de preocupações e arrependimentos.
“Todos os homens de onde você vem são assim?” Chi Xiaoduo perguntou a Xiang Cheng quando o filme começou.
“Não sei”, disse Xiang Cheng. “Meu pai é assim, sempre ouve a minha mãe.”
As mãos de Chi Xiaoduo e Xiang Cheng se esbarravam constantemente dentro do balde de pipoca; Xiang Cheng, usando óculos 3D, parecia visivelmente desconfortável.
“Essa pipoca é deliciosa, mas cara”, disse Xiang Cheng. “Na minha cidade, dá para comprar um pacote enorme por apenas um yuan.”
Assim que o filme começou, Xiang Cheng levou um susto e deu um pulo.
As pessoas ao redor riram; Chi Xiaoduo puxou Xiang Cheng rapidamente de volta para o assento. Xiang Cheng sussurrou: “Como isso é possível?”
“Shh”, disse Chi Xiaoduo. “Você nunca viu um filme em 3D antes?”
“Não.” Xiang Cheng parecia maravilhado; a luz do filme refletia em seu rosto enquanto ele dizia: “É incrível demais.”
Chi Xiaoduo sussurrou: “A tecnologia é muito interessante; vamos assistir primeiro.”
Era um filme de ficção científica espacial, e Xiang Cheng mal conseguia entender a trama. Ele ficou completamente perdido do início ao fim e, de tempos em tempos, Chi Xiaoduo lhe explicava as coisas em voz baixa. Como não queria incomodar as pessoas ao redor, ele sempre se aproximava do ouvido de Xiang Cheng para dar as explicações. Xiang Cheng também inclinava a cabeça, encostando o ouvido nos lábios de Chi Xiaoduo, e acenava com a cabeça de vez em quando.
O filme terminou e, quando saíram, a pele da orelha esquerda de Xiang Cheng e do lado esquerdo de seu pescoço estava avermelhada, descendo até o ombro.
“Vamos comprar mantimentos; vou preparar uma comida gostosa para você hoje à noite”, disse Xiang Cheng.
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Depois de fazer as compras e voltar para casa para cozinhar, Chi Xiaoduo deitou-se no sofá e foi enviando mensagens aos amigos, um por um, para avisar que havia pedido demissão. Enquanto isso, Xiang Cheng (que havia bebido um pouco de cerveja), continuava perguntando detalhes sobre o filme, maravilhado com o quão pouco do mundo ele conhecia.
Enquanto Chi Xiaoduo tomava banho, Xiang Cheng ficou sentado no sofá, segurando um frasco de rapé de vidro, virando-o de um lado para o outro, examinando-o.
Sua melhor amiga havia encontrado um lugar onde eles poderiam aprender judô; quando Chi Xiaoduo saiu do banheiro enquanto falava ao telefone, Xiang Cheng guardou imediatamente o frasco de rapé. Chi Xiaoduo deu uma volta pela sala antes de se deixar cair, sem rumo, sobre a cama.
Meia hora depois, Xiang Cheng bateu à porta do quarto principal e perguntou: “Xiaoduo?”
Chi Xiaoduo estava um pouco cansado, mas, naquele momento, estava conferindo seus grupos do WeChat. Ele acabara de avisar no grupo que havia pedido demissão.
“Você vai tomar banho?” Chi Xiaoduo perguntou, sentando-se na cama e puxando o edredom para cobrir-se.
“Já vou”, disse Xiang Cheng. “Está cansado?”
“Hum, um pouco.” O que Chi Xiaoduo realmente queria perguntar era: Você vai dormir comigo?, mas não teve coragem de dizer isso em voz alta.
“Se está cansado, então durma”, disse Xiang Cheng, ajeitando o edredom para ele.
“O que houve?” Chi Xiaoduo perguntou. “Você ficou um pouco estranho desde que voltamos para casa. Está de mau humor?”
Xiang Cheng respondeu: “Nada, ainda estou pensando no que aconteceu no filme.”
Chi Xiaoduo sorriu e disse: “Qualquer dia desses, vou comprar alguns Blu-rays. Vou procurar alguns dos meus filmes favoritos de antigamente, e a gente compensa tudo de uma vez.”
“Tá bom”, respondeu Xiang Cheng.
Quando Chi Xiaoduo era estudante, costumava assistir a filmes sozinho. Ao sentar-se na sala de cinema vazia, comendo pipoca enquanto assistia, ele sempre pensava em como teria sido bom ter um namorado.
“Boa noite.”
“Boa noite.”
Xiang Cheng apagou a luz, e o quarto mergulhou na escuridão.
Chi Xiaoduo ouvia o som de Xiang Cheng tomando banho. Embora estivesse um pouco cansado, não resistiu e ficou mais um pouco rolando o feed do Weibo. Afinal, ele havia pedido demissão e faria a transição do cargo no dia seguinte. Não precisava mais assumir projetos e podia deixar a procrastinação correr solta o quanto quisesse.
Chi Xiaoduo continuou rolando a tela por um bom tempo, até que o som dos passos de Xiang Cheng parou diante da porta do quarto principal.
Xiang Cheng abriu a porta e entrou.
Chi Xiaoduo: “?”
“O que foi?”
“Não dormiu ainda?” Os olhos de Xiang Cheng ainda não haviam se acostumado à escuridão.
Chi Xiaoduo estendeu a mão para acender a luz, apenas para ver Xiang Cheng vestindo uma jaqueta esportiva na parte de cima, enquanto vestia somente uma cueca na parte de baixo. As duas mãos dele estavam enfiadas nos bolsos da jaqueta.
Chi Xiaoduo: “……”
“O que você tem nos bolsos?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Minhas mãos”, respondeu Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo puxou os braços dele, e Xiang Cheng tirou as mãos para que ele as inspecionasse. Em seguida, Chi Xiaoduo também virou os bolsos do avesso, e não havia nada dentro.
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Notas:
1 停杯投箸不能食,拔剑四顾心茫然 (Tíng bēi tóu zhù bùnéng shí, bá jiàn sì gù xīn mángráng): Verso clássico do renomado poeta Li Bai (da obra «O Caminho é Dificil» / 《行路难》(Xinglunan)).
2 二十四孝 (Èrshísì xiào): Existe um texto escrito na Dinastia Yuan sobre valores morais confucionistas, especificamente valores filiais. É este texto.
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Flor: Kuang Desheng tá bem! Que alivio!
O Xiang Cheng não quer apagar as memórias do Xiaoduo, por que ele é precioso pra ele T-T