Capítulo 93
Capítulo 93
Marvin procurava pelo compartimento do motor. Ele conseguia ouvir pessoas se movendo no convés superior, mas ninguém havia descido ainda. Deviam ter presumido que ele não estava ali embaixo. Ele estava prestes a descer mais um nível quando ouviu passos se aproximando na direção oposta. O som de um rádio sugeria que era um membro da tripulação.
Uma briga em espaço aberto era a última coisa de que precisava. Marvin se escondeu até o homem passar e continuou descendo as escadas. O zumbido das máquinas ficava mais alto e, logo em seguida, ele encontrou a sala do motor. Estava trancada.
Ele varreu a área com o olhar. Talvez a chave estivesse guardada em algum lugar conveniente. As pessoas costumavam ser descuidadas quando o assunto era acessibilidade. Como esperado, um chaveiro com várias chaves estava pendurado dentro de um painel de controle ao lado do extintor de incêndio.
Ele testou chave por chave até a porta dar um estalo e abrir. Lá dentro, o rugido do motor a diesel era ensurdecedor, muito mais complexo do que ele esperava.
Tubulações se cruzavam pelo exterior do motor, e dutos de exaustão se estendiam para cima. Só de olhar, ele não fazia a menor ideia de como tudo aquilo funcionava. Havia múltiplas válvulas, mas ele não sabia o que cada uma controlava. Um movimento errado e o motor poderia explodir, afundando o navio.
Pelo visto, a única opção real era chegar ao passadiço e assumir o controle do leme. Marvin suspirou e se virou para sair, bem no momento em que vários homens desceram ruidosamente as escadas acima.
— Esse desgraçado está se escondendo muito bem. Espalhem-se e procurem de novo.
O barulho do motor abafava as vozes deles, mas, infelizmente, um deles estava vindo em sua direção. Marvin se escondeu atrás de um grande duto de exaustão.
Um tripulante baixinho se aproximou. Ele nem se deu ao trabalho de checar outro lugar e foi direto para a porta da sala do motor. Então, pressentindo algo estranho, testou a maçaneta em silêncio. Rangeu. A porta girou. Ela deveria estar trancada.
Ele espiou cautelosamente para dentro. Marvin estava fora de vista, mas a expressão do homem sugeria que ele sabia que havia alguém ali.
— Ei, você checou tudo?
Uma voz chamou do fim do corredor. O tripulante baixinho se virou.
— Sim, não tem ninguém aqui.
Ele respondeu displicentemente e saiu com os outros.
Marvin permaneceu imóvel. O tripulante podia ter fingido que não viu, mas aquilo também podia ser uma armadilha. Se estivessem preparando uma emboscada, atacariam no momento em que ele se mostrasse.
Mas, se fosse o caso, eles teriam trancado a porta novamente. O fato de não terem feito isso sugeria que não havia má intenção. Marvin esperou mais um pouco, ainda escondido.
Cinco minutos se passaram. O tripulante baixinho voltou, abrindo a porta com cuidado e varrendo a sala com o olhar. — Olá? — chamou ele primeiro, com uma voz surpreendentemente jovem.
Marvin decidiu arriscar e deu um passo para fora de trás do duto de exaustão. O tripulante sobressaltado ergueu as mãos, mostrando que não estava ali para lutar.
— Uh… olá.
Ele piscou para Marvin, que não correspondia à imagem mental que ele tinha de um intruso. Recobrando a postura, falou novamente:
— De alguma forma, eu senti que você estaria aqui. Você está bem?
O tom afiado de Marvin sugeria que ele ainda não confiava totalmente nele. O tripulante assentiu, entendendo a deixa.
— Você está se oferecendo para ajudar?
Outro aceno de cabeça.
— Você é da tripulação da Jingang?
Desta vez, ele respondeu em voz alta: — Sim. Bem… ainda sou um estagiário.
Ele coçou a cabeça. Marvin baixou a guarda. O garoto parecia ter acabado de se formar no ensino médio.
— Mesmo como estagiário, você deve ter estudado alguma coisa. Preciso parar este navio — você sabe como manejar isso?
Marvin apontou para o motor.
— Ah, estou treinando para ser navegador, então não entendo muito de motores—
Um lampejo de esperança, mas nenhum grande avanço. Ainda assim, ele poderia ajudar com outras coisas.
— Então você sabe a senha do Wi-Fi?
— Hã? Ah, sei sim!
Ele rapidamente tirou o celular do bolso e mostrou a senha a Marvin. Marvin a digitou, e seu telefone finalmente se conectou. A mensagem não enviada ficou cinza, com o botão de reenviar ativo.
Ele ligou imediatamente para Jang Jin-woo pelo aplicativo, mas a conexão estava instável. Frustrado, enviou uma mensagem em vez disso.
Aquilo também não foi fácil. A seta girou por alguns segundos antes de finalmente marcar como enviada. A resposta veio rápida.
— Duas embarcações de patrulha da Guarda Costeira estão no encalço. Você consegue parar o navio totalmente?
Pelo menos o reforço estava a caminho. Marvin já estava tentando fazer exatamente aquilo. Mas não era simples. Ele se voltou para o jovem tripulante ansioso ao seu lado.
— Existe alguma chance de você entrar no passadiço e virar o navio ou desligar o motor?
— Uh… isso é complicado. Entrar no passadiço não é difícil, mas a chave do motor está com o capitão.
— O capitão… aquele cara liderando os outros mais cedo?
— É.
A expressão do tripulante fechou. Ele não parecia gostar muito do capitão.
— Ele nem é funcionário da Jingang.
Ele era chinês, e só embarcava naquele navio quando havia trabalho. Vinha poucas vezes ao ano, e a tripulação detestava suas ordens repentinas e arbitrárias. Além disso, ele sempre trazia dois homens próprios. Eram do tipo preguiçosos e agressivos, de quem ninguém gostava. Fora eles, o resto era a tripulação regular da Jingang, que já estava de saco cheio do comportamento do capitão.
— Um deles tem licença de engenheiro. Parar o navio pode ser tão simples quanto fechar a válvula de combustível como aquela ali. — Ele apontou. — Mas tenho medo de fazer besteira… De qualquer forma, ele saberia como parar o navio. O outro cara estava falando comigo mais cedo. Ele está preocupado de ficarmos presos na China e não conseguirmos voltar. Se a Guarda Costeira está nos perseguindo, ele não vai ficar do lado do capitão. Vou lá falar com ele.
— Ótimo. Se você conseguir trazê-los para o nosso lado, faça os três garantirem água suficiente e me encontrem na sala do motor. Assim que o navio parar, tranquem a porta e não saiam até a polícia chegar.
— E você? Por que não fica com a gente? É perigoso lá fora.
— Se eu ficar, este lugar vira o alvo. Alguém tem que segurar eles do lado de fora.
O jovem tripulante entreabriu os lábios, impressionado. — Oh…
Para ele, Marvin devia parecer um verdadeiro Jason Bourne¹ na vida real.
— Espera, você é tipo algum tipo de agente especial?
Marvin não respondeu.
— Você sabe atirar?
— Sei.
— Então vá para a sala de navegação no segundo andar. Tem um armário azul lá. Você pode abrir com isso. — Ele entregou uma chave a Marvin. — Tem uma espingarda de pressão lá dentro, se você precisar.
Ele parecia empolgado, como se tivesse acabado de dar uma melhoria de arma para o protagonista. Marvin guardou a chave no bolso. Não havia tempo a perder. O tripulante parecia ansioso para conversar mais, mas Marvin enviou uma resposta a Jang Jin-woo.
— Deve ser possível. Vou atrasá-los o máximo que puder.
Jang Jin-woo devia estar esperando. Sua resposta foi instantânea.
— Oito da Dongyang. Dois civis. Seis da Jingang, três deles cooperativos.
Mesmo assim, as chances ainda estavam contra Marvin. Jang Jin-woo parecia perceber isso também.
— Esqueça o que eu disse sobre não lutar. Eu limpo qualquer bagunça depois, só garanta que você não vá se machucar.
Marvin deu um sorriso de canto para o celular. Há trinta minutos, Jang Jin-woo tinha dito para ele se esconder e evitar confusão. Agora o tom mudara completamente.
Ele não respondeu, apenas guardou o telefone no bolso de trás. A verdade era que não podia prometer que sairia ileso. Seus instintos, afiados por anos no campo de batalha, gritavam que aquilo era perigoso.
Pela primeira vez em muito tempo, ele fez sua oração habitual. Se o momento chegar, que seja rápido. Amém.
— Vamos.
Marvin e o tripulante deixaram a sala do motor.
Nota do tradutor: Jason Bourne: agente da CIA nos filmes da saga Bourne. (Assistam ultimate bourne, 10/10)
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello