Capítulo 53
He Siyu estava prestes a entrar quando, talvez atraído pelo som da música ou por ter percebido o olhar dela, de repente ergueu a cabeça e encontrou seus olhos serenos e límpidos como vidro.
Seus passos vacilaram, parando no meio do movimento.
No entanto, ela desviou casualmente o olhar, voltando sua atenção para as cordas sob as pontas dos dedos, como se aquela breve troca de olhares não tivesse sido mais do que um olhar acidental.
He Siyu abaixou a cabeça e entrou, dirigindo-se ao segundo andar.
Lá, encontrou a Velha Madame He e Sang Ning sentadas na varanda, tomando chá sob o sol. Sang Ning, como antes, segurava uma pipa nos braços, enquanto seus dedos dançavam levemente sobre as cordas.
Quando as últimas notas de sua melodia desapareceram, Sang Ning pousou os dedos esguios sobre as cordas e então ergueu a cabeça com um sorriso doce e demorado.
A Velha Madame He bateu palmas com entusiasmo.
— Maravilhoso! “Neve de Primavera” sempre foi a minha favorita, mas a maioria das interpretações parece rígida. Somente a sua consegue transmitir a verdadeira essência do renascimento da primavera. Quem diria que alguém tão serena quanto você conseguiria trazer tanta leveza à melodia?
Ela contemplou com carinho o rosto jovem de Sang Ning.
— Ah, a energia da juventude.
Sang Ning respondeu com um sorriso tímido.
He Siyu se aproximou, e somente então a Velha Madame He percebeu sua presença. Ela se virou, surpresa.
— O que o traz de volta?
Sang Ning também olhou para ele, com uma expressão de leve curiosidade.
— Só vim buscar uma coisa — respondeu He Siyu casualmente, embora seus olhos permanecessem no rosto de Sang Ning.
O doce sorriso dela ainda não havia desaparecido, e seus olhos, normalmente serenos, brilhavam com uma luz viva e radiante, ainda iluminados pelo elogio que havia recebido.
— O que exatamente você esqueceu? — insistiu a Velha Madame He.
Sang Ning voltou o olhar para a senhora, e He Siyu sentiu uma inexplicável pontada de decepção quando aqueles olhos radiantes se afastaram dele. Sua atenção acompanhou a dela até a Velha Madame He.
— Alguns documentos. Deixei-os aqui da última vez.
— Você poderia ter mandado o Pequeno Yan buscá-los. Não precisava vir pessoalmente — comentou a Velha Madame He com uma risadinha.
— Eu já estava passando por aqui.
Com isso, ele se virou em direção ao próprio quarto, caminhando sem pressa.
— Já que está aqui, fique para o almoço. Está quase meio-dia, e comida caseira é sempre melhor do que comer fora. Além disso, Sang Ning também está aqui.
Eram quase onze horas, e o horário do almoço se aproximava.
— Hmm — respondeu ele preguiçosamente.
A Velha Madame He ficou animada com a rara agitação na casa e se levantou.
— Vou verificar a cozinha e pedir que preparem seu camarão cauda-de-fênix favorito.
Depois que ela saiu, Sang Ning lançou um breve olhar na direção do quarto de He Siyu antes de baixar os olhos e guardar cuidadosamente sua pipa.
Três minutos depois, He Siyu saiu, com uma pasta de documentos na mão.
Seu olhar se desviou para a varanda, onde Sang Ning ainda estava sentada, com a pipa agora apoiada sobre o colo enquanto ela polia delicadamente seu corpo de sândalo com um pano de seda.
A luz do sol realçava sua pele clara, lançando um brilho suave que acentuava seu jeito delicado. Seus cílios escuros tremulavam levemente como asas delicadas, acrescentando beleza serena àquele momento.
Pela primeira vez, He Siyu sentiu uma tranquilidade reconfortante.
Ela pareceu perceber que ele a observava e ergueu a cabeça, encontrando seus olhos límpidos.
— Sr. He — cumprimentou ela educadamente, com um sorriso cortês.
Era igual ao de antes — e, de alguma forma, diferente.
Ele não conseguia identificar o motivo, mas aquilo o deixava inquieto.
— O que a trouxe para visitar a vovó hoje? — perguntou ele, em um tom frio.
— Hoje é sábado. Não tenho aulas nem nada urgente em casa, então pensei em vir ver a Velha Madame He. — Sua voz permaneceu serena, carregando a habitual sinceridade.
Ele esboçou um leve sorriso de escárnio.
— É mesmo? Você resolveu as coisas com Du Yao?
Sang Ning assentiu.
— Sim. As famílias Sang e Du fizeram as pazes. Os Du até nos convidaram para colaborar no novo projeto deles.
Seus lábios se curvaram em um sorriso feliz.
— E eu não preciso mais me casar com Du Yao.
O brilho repentino em seus olhos o pegou de surpresa. Ele desviou o olhar, mantendo a voz indiferente.
— Você parece muito feliz.
— É claro. Eu nunca gostei dele.
— Então de quem você gosta? Daquele ator? — zombou ele.
Mas Sang Ning balançou a cabeça.
— Aquilo era apenas admiração.
Além disso, aquele homem exigia pagamento.
He Siyu bufou, mas não respondeu, embora Sang Ning tenha percebido que sua expressão havia se suavizado ligeiramente.
“Será que é realmente tão fácil acalmá-lo?”
Então ela arriscou:
— Ah, por falar nisso, acabei de perceber que perdi algumas ligações suas. Ainda estou me acostumando com os smartphones, então só as vi hoje. Foi sem querer?
A sobrancelha dele se contraiu ao se lembrar da humilhante situação no Hotel Intercontinental.
— Provavelmente. Não me lembro.
Sang Ning assentiu, concordando.
— Foi o que pensei.
Ela hesitou antes de acrescentar:
— Também lhe devo um pedido de desculpas pelo que aconteceu da última vez. Fui eu quem levou Chen Zhihan a acreditar que aquele quarto era seu.
He Siyu estreitou os olhos. O que era aquilo? De repente, ela estava sendo honesta com ele?
Ela não havia contado suas mentiras com tanta facilidade antes?
Sang Ning sustentou seu olhar com sinceridade.
— A Velha Madame He tem sido tão gentil comigo, e você também tem cuidado de mim. Não quero enganá-lo.
Seus olhos límpidos transmitiam uma sinceridade inabalável, como se dissessem: “Posso mentir para o mundo, mas jamais para você.”